domingo, 9 de março de 2008

ANTONIO CANDIDO E ANARQUISTAS DO SUL DE MINAS

Por José Pedro Martins

O “Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura”, que tem sua primeira edição em 2008 e já se transformou em um dos principais prêmios do gênero no Brasil, representa uma homenagem especial ao professor e ensaísta Antônio Cândido de Mello e Souza, que recebeu ainda em dezembro de 2007, do governador Aécio Neves, a Medalha da Inconfidência.
Reconhecimento importante a obra de Antônio Cândido, que nasceu no Rio de Janeiro, a 24 de julho de 1918 e, de família mineira, viveu a infância em Poços de Caldas, onde teve sua formação antes de se transferir para São Paulo, para prosseguir os estudos e onde se consagrou como grande educador e ensaísta.
Entre outros títulos importantes, escreveu “Os Parceiros do Rio Bonito”, obra-prima da sociologia brasileira, “Formação da Literatura Brasileira”, “O discurso e a cidade” e “Educação pela noite”. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Unicamp, entre outros reconhecimentos no Brasil e exterior.
A Medalha da Inconfidência, recebida por Antônio Cândido, não deixa de ser resgate significativo de um momento muito rico da política e cultura brasileira, mas que ainda vem sendo relegado a segundo plano. Trata-se da influência exercida pelos ideais anarquistas na formação da inteligência cultural e política brasileira. E nesse sentido o Sul de Minas, sobretudo a partir de Poços de Caldas, tem papel de destaque.
São recorrentes, nas entrevistas que concede e em artigos que escreve, as referências de Antônio Cândido aos ideais anarquistas com quem conviveu, em Poços de Caldas, onde imigrantes italianos e outros europeus estabeleceram um nucleo anarquista de relevo. Ele cita com especial carinho o pensamento de Teresina Carini Rocchi (1863-1951), imigrante italiana que chegou ao Brasil em 1890 e, depois de viver em São Paulo, se estabeleceu em Poços de Caldas. Essa ligação resultou no livro de Cândido, "Teresina e seus amigos" (Editora Paz e Terra, 1996)
Teresina conviveu com alguns dos mais importantes nomes do anarquismo brasileiro do começo do século 20, como Antonio Piccarolo, Edmondo Rossoni, Alceste de Ambris e Alcibíade Bertolotti, um dos fundadores e dos principais redatores do jornal “Avanti!”, uma das mais importantes publicações do movimento operário do período.
Outro amigo de Teresina, e igualmente estabelecido em Poços de Caldas, era Adelino Tavares de Pinho, nascido no norte de Portugal, um dos fundadores da Escola Moderna n° 1 em São Paulo, e ainda da Escola Moderna n° 2, antes de, em função da forte repressão policial desencadeada contra os anarquistas na época, ter se refugiado no Sul de Minas, estabelecendo-se em Poços de Caldas, a partir de 1919.
Deve ser igualmente lembrado o nome de Bruno Fosco Pardini, hoteleiro e jornalista nascido na Itália, tendo sido editor, em 1916, de “A voz do trabalhador”. Pardini foi um dos fundadores e presidente (em 1926, primeira vez, e 1954, última) da Associação Atlética Caldense. Muitos nomes, assim, da relevante galeria de anarquistas do Sul de Minas, com ênfase em Poços de Caldas.
Pela perseguição governamental e repressão policial, principalmente, mas depois pela hegemonia das correntes marxistas, o anarquismo foi paulatinamente sendo relegado a segundo plano na história do movimento social no Brasil. Mas trata-se de uma contribuição que merece ser resgatada, inclusive para superar o estigma criado em relação ao anarquismo, que seria sinônimo de caos, de desgoverno.
Pelo contrario, o anarquismo sempre foi muito racional e defensor do auto-governo, da organização local. Enfim, existem muitos motivos para se conhecer melhor essa história, e a homenagem a Antônio Cândido, pelo governo de Minas, não deixa de ser especial contribuição nesse sentido.

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