domingo, 9 de março de 2008
ANTONIO CANDIDO E ANARQUISTAS DO SUL DE MINAS
O “Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura”, que tem sua primeira edição em 2008 e já se transformou em um dos principais prêmios do gênero no Brasil, representa uma homenagem especial ao professor e ensaísta Antônio Cândido de Mello e Souza, que recebeu ainda em dezembro de 2007, do governador Aécio Neves, a Medalha da Inconfidência.
Reconhecimento importante a obra de Antônio Cândido, que nasceu no Rio de Janeiro, a 24 de julho de 1918 e, de família mineira, viveu a infância em Poços de Caldas, onde teve sua formação antes de se transferir para São Paulo, para prosseguir os estudos e onde se consagrou como grande educador e ensaísta.
Entre outros títulos importantes, escreveu “Os Parceiros do Rio Bonito”, obra-prima da sociologia brasileira, “Formação da Literatura Brasileira”, “O discurso e a cidade” e “Educação pela noite”. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Unicamp, entre outros reconhecimentos no Brasil e exterior.
A Medalha da Inconfidência, recebida por Antônio Cândido, não deixa de ser resgate significativo de um momento muito rico da política e cultura brasileira, mas que ainda vem sendo relegado a segundo plano. Trata-se da influência exercida pelos ideais anarquistas na formação da inteligência cultural e política brasileira. E nesse sentido o Sul de Minas, sobretudo a partir de Poços de Caldas, tem papel de destaque.
São recorrentes, nas entrevistas que concede e em artigos que escreve, as referências de Antônio Cândido aos ideais anarquistas com quem conviveu, em Poços de Caldas, onde imigrantes italianos e outros europeus estabeleceram um nucleo anarquista de relevo. Ele cita com especial carinho o pensamento de Teresina Carini Rocchi (1863-1951), imigrante italiana que chegou ao Brasil em 1890 e, depois de viver em São Paulo, se estabeleceu em Poços de Caldas. Essa ligação resultou no livro de Cândido, "Teresina e seus amigos" (Editora Paz e Terra, 1996)
Teresina conviveu com alguns dos mais importantes nomes do anarquismo brasileiro do começo do século 20, como Antonio Piccarolo, Edmondo Rossoni, Alceste de Ambris e Alcibíade Bertolotti, um dos fundadores e dos principais redatores do jornal “Avanti!”, uma das mais importantes publicações do movimento operário do período.
Outro amigo de Teresina, e igualmente estabelecido em Poços de Caldas, era Adelino Tavares de Pinho, nascido no norte de Portugal, um dos fundadores da Escola Moderna n° 1 em São Paulo, e ainda da Escola Moderna n° 2, antes de, em função da forte repressão policial desencadeada contra os anarquistas na época, ter se refugiado no Sul de Minas, estabelecendo-se em Poços de Caldas, a partir de 1919.
Deve ser igualmente lembrado o nome de Bruno Fosco Pardini, hoteleiro e jornalista nascido na Itália, tendo sido editor, em 1916, de “A voz do trabalhador”. Pardini foi um dos fundadores e presidente (em 1926, primeira vez, e 1954, última) da Associação Atlética Caldense. Muitos nomes, assim, da relevante galeria de anarquistas do Sul de Minas, com ênfase em Poços de Caldas.
Pela perseguição governamental e repressão policial, principalmente, mas depois pela hegemonia das correntes marxistas, o anarquismo foi paulatinamente sendo relegado a segundo plano na história do movimento social no Brasil. Mas trata-se de uma contribuição que merece ser resgatada, inclusive para superar o estigma criado em relação ao anarquismo, que seria sinônimo de caos, de desgoverno.
Pelo contrario, o anarquismo sempre foi muito racional e defensor do auto-governo, da organização local. Enfim, existem muitos motivos para se conhecer melhor essa história, e a homenagem a Antônio Cândido, pelo governo de Minas, não deixa de ser especial contribuição nesse sentido.
GOVERNO DE MINAS ACELERA MEDIDAS DE PROTEÇÃO DAS ÁGUAS
Por José Pedro Martins
A criação do Parque Estadual da Serra da Boa Esperança, a campanha de regularização de todos os usos de água, o 7º Fórum das Águas de Minas Gerais e as medidas relacionadas aos impactos da expansão da cana-de-açúcar no estado. Estas são algumas das iniciativas do governo de Minas Gerais para acelerar a proteção das águas no estado. São ações com impacto direto na preservação dos recursos hídricos no Sul de Minas, fundamentais para a qualidade de vida e o desenvolvimento econômico mineiro e também das principais áreas econômicas do país, São Paulo e Rio de Janeiro.
“Serra da Boa Esperança esperança que encerra/No coração do Brasil um punhado de terra/No coração de quem vai, no coração de quem vem”. Os versos de “Serra da Boa Esperança”, do famoso compositor carioca Lamartine Babo (1904-63), contribuíram para imortalizar e popularizar a Serra que tem altitudes máximas de 1400 metros e que foi transformada em Parque Estadual, pelo Decreto 44.520, de 16 de maio de 2007. O Parque será gerido pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF) de Minas Gerais. Localizado, às margens do Lago de Furnas, no município de Boa Esperança, o Parque foi criado visando a proteção sobretudo dos recursos hídricos da região. Estão nas encostas da Serra fontes e nascentes de cursos d’água tributários do Rio Grande e do Lago de Furnas, essencial para o abastecimento de milhares de famílias e também para a geração de energia elétrica no estado.
Com uma área de 5.873 hectares, o Parque Estadual da Serra da Boa Esperança também foi criado para proteger a rica biodiversidade em flora e fauna da região, e que estava ameaçada pela expansão inadequada de atividades agrícolas. O Atlas para a Conservação da Biodiversidade do Estado de Minas (Biodiversitas) identifica a “Bacia de Furnas” como uma das áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade em território mineiro.
A institucionalização do Parque representa, assim, a concretização de um desejo de preservação, implícito na música inspirada de Lamartine Babo, que inclui um dos versos mais belos já escritos em língua portuguesa – “Oh minha serra eis a hora do adeus vou me embora/Deixo a luz do olhar no teu luar”. A música foi composta depois que Lamartine de Azeredo Babo, o Lalá, soube, em visita a cidade, que “Nair”, uma suposta fã de Boa Esperança que havia lhe escrito cartas apaixonadas, era na realidade o nome da sobrinha de um dentista local, o verdadeiro autor das correspondências. Com o Parque Estadual da Serra da Boa Esperança, Minas passa a ter 30 Unidades de Conservação desta categoria, somando 406.450 hectares de áreas protegidas. Campanha e Fórum das Águas - Em fevereiro de 2008 vários municípios do Sul de Minas sediaram encontros de divulgação da Campanha de Regularização do Uso dos Recursos Hídricos em Minas Gerais – Água: Faça o uso legal. A Campanha é uma iniciativa do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), visando a regularização de todo uso de águas no estado, envolvendo, entre outras modalidades, intervenções em rios, córregos, nascentes ou poços, cisternas e barramentos.
A Campanha do Igam, que pretende identificar os usuários das águas visando políticas publicas mais eficazes de conservação, tem apoio no Sul de Minas dos Comitês de Bacias Hidrográficas (CBHs) do rio Sapucaí e do rio Verde. São bacias integrantes da enorme Bacia do Rio Grande e que envolvem cerca de 60 municípios com uma população em torno de 1 milhão de moradores.
A proteção dos recursos hídricos é, da mesma forma, o grande objetivo do 7o Fórum das Águas de Minas Gerais, a ser realizado em Belo Horizonte, entre os dias 24 a 28 de março. As inscrições gratuitas para o Fórum, que terá vagas limitadas nos sete mini-cursos oferecidos, podem ser feitas via internet no site do Igam (www.igam.mg.gov.br). Além dos mini-cursos, várias outras atividades acontecerão durante o Fórum, promovido pelo Sistema Estadual de Meio Ambiente (Sisema), através do Igam, e também pelo Fórum Mineiro de Comitês de Bacias Hidrográficas, Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), Federação das Indústrias de Minas Gerias (Fiemg), Assembléia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Minas Gerais (Crea-MG) e Prefeitura Municipal de Belo Horizonte.
Neste ano o Fórum também terá encontros regionais. O objetivo é “envolver a sociedade mineira nas discussões sobre os desafios da gestão das águas no Estado”, nas palavras da diretora-geral do Igam, Cleide Izabel Pedrosa de Melo. O Fórum representa, portanto, mais um passo no elenco de iniciativas do governo de Minas Gerais para a proteção das águas do Estado, essenciais para o desenvolvimento sustentável mineiro e do Brasil.
MEDIDAS RELACIONADAS À CANA VISAM PRESERVAR AS ÁGUAS
Medidas tomadas pelo governo de Minas Gerais, relacionadas à espetacular expansão da cultura da cana-de-açúcar no Estado, têm impacto direto na proteção das águas, sobretudo no Sul. Minas Gerais é o estado de maior crescimento proporcional da produção de cana-de-açúcar no Brasil. Entre 2005 e 2006, segundo o IBGE, a safra de cana-de-açúcar no país cresceu 8,1%, mas em Minas Gerais o incremento na produção foi de 29% em relação ao ano anterior.
Minas já é o terceiro maior produtor de cana do Brasil, que é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar com tendência de maior crescimento por causa da demanda pelo etanol, combustível menos poluente e uma das alternativas de prevenção do aquecimento global. Segundo a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, a produção de cana em Minas Gerais, em 2006, foi de 25 milhões de toneladas, com área plantada de 349 mil hectares. Os investimentos em novas usinas de açúcar ate 2012 são estimados em US$ 2,85 bilhões, centrados sobretudo no Triângulo Mineiro. A previsão é de produção de 78 milhões de toneladas de cana em 2010 em Minas.
Depois do Triângulo Mineiro, uma das áreas de maior expansão da cana em Minas está no Sudoeste e Sul, especialmente na região compreendida pelos municípios de Monte Santo de Minas, Guaxupé, Arceburgo, Muzambinho, Areado, Cabo Verde, Alterosa, Nova Serrania, Areado e Alfenas. Outro pólo importante está entre Jacutinga e Ouro Fino, mais ao Sul.
Uma das medidas vinculadas à expansão ordenada da cana é o Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado de Minas Gerais, desenvolvido pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), no Sul do Estado. O objetivo do Zoneamento é “contribuir para a definição de áreas estratégicas para o desenvolvimento sustentável de Minas Gerais, orientando os investimentos do Governo e da sociedade civil segundo as peculiaridades regionais”.
Pelo Zoneamento, é possível identificar as atividades econômicas adequadas aos tipos de solo, disponibilidades de recursos hídricos e outras condições em cada região do território mineiro. No caso da cana, um dos objetivos do Zoneamento é evitar que a expansão atinja áreas de vegetação nativa ou contribua para agravar a situação de recursos hídricos.
Assim, pela legislação, o licenciamento de qualquer nova atividade do setor sucroalcooleiro em Minas depende de análise prévia da disponibilidade de recursos hídricos, da avaliação com base nas cartas do Zoneamento Ecológico-Econômico e da exigência de Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima), entre outras medidas.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
ÁGUAS DO SUL DE MINAS GERAIS, QUESTÃO DE “SEGURANÇA NACIONAL”
Rio Grande e outros principais cursos d' água do Sul de Minas(Mapa disponibilizado no Sistema Integrado de Informações Ambientais - Siam, vinculado à Secretaria Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD) de Minas Gerais)Por José Pedro Martins
(Matéria também publicada no jornal "Itamogi Noticias")
RIQUEZA E ABASTECIMENTO DE SÃO PAULO E RIO DE JANEIRO DEPENDEM DO SUL DE MINAS
A bacia do Rio Paraíba do Sul é integrada por duas bacias, a dos afluentes mineiros dos rios Preto e Paraibuna e a dos rios Pomba e Muriaé. A região da bacia do Rio Paraíba do Sul é onde está o importante município de Juiz de Fora. É uma região de grande influência do Rio de Janeiro – os mineiros dessa região até torcem para times cariocas.
O Rio Paraíba do Sul nasce pela junção dos rios Paraitinga e Paraibuna, ainda no estado de São Paulo, mas depois atravessa Minas Gerais (na Zona da Mata) antes de chegar ao território do Rio de Janeiro. Em Minas Gerais estão 88 dos 180 municípios que compõem a bacia do Rio Paraíba do Sul. Cerca de 14 milhões de moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro é abastecida com 47 mil litros de água por segundo da bacia do Rio Paraíba do Sul. Ou seja, a Bacia que tem grande parte de seu território no Sul de Minas Gerais é responsável pelo abastecimento da segunda região economicamente mais forte do Brasil, correspondendo a cerca de 10% do PIB nacional.
A mesma importância econômica tem a bacia dos rios Piracicaba e Jaguari, no extremo Sul de Minas Gerais. A região compreende os municípios de Camanducaia, Extrema, Toledo e Itapeva, onde vivem pouco mais de 50 mil moradores. É nessa região de 1.161 km² que estão as nascentes dos rios Atibaia e Jaguari, que são os principais rios formadores da bacia do rio Piracicaba. Esta é a bacia responsável pelo abastecimento de metade da Grande São Paulo, ou cerca de 10 milhões de pessoas, através do Sistema Cantareira. O Cantareira é composto por cinco reservatórios, que armazenam as águas dos rios que nascem em Minas Gerais. Proteger as nascentes desses rios, nas encostas na Mantiqueira, significa, portanto, garantir água para a região mais populosa e rica do Brasil. Dado que confirma como e uma questão estratégica para o pais proteger as águas do Sul de Minas Gerais.
Do mesmo modo, as águas do rio Mogi-Guacu, que nasce em Minas Gerais, são fundamentais para abastecimento de cidades mineiras e paulistas. A Bacia Hidrográfica do Mogi-Guaçu compreende uma área de 35.742 km², sendo 17% em Minas Gerais e 83% em São Paulo. São 40 municípios, com população de cerca de 1,5 milhão de habitantes. Entre outros municípios estão Andradas, Bom Repouso, Inconfidentes, Jacutinga, Monte Sião e Ouro Fino (MG) e Serra Negra, Socorro, Lindóia, Águas de Lindóia, Itapira, Mogi Guaçu e Espírito S. do Pinhal (SP). Resta pouca vegetação nativa na área da bacia. (Por José Pedro Martins)
ALFABETO DA ÁGUA
Água, o que é – Água é um corpo líquido à temperatura normal, insípido, incolor e inodoro, formado por duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio. Sua representação simbólica é H2O.
A importância da água é especial para o ser humano, que é constituído em mais de 70% por essa substância. Alguns órgãos e outras partes do ser humano têm ainda mais água em sua composição. O sangue é constituído em mais de 90% de água. Todos os processos biológicos que garantem a vida humana, e demais espécies, no planeta dependem diretamente da água.
Água no planeta Terra - Mais de dois terços da superfície do planeta Terra são constituídos de água, o que demonstra a sua importância para todos os ciclos vitais, de todas as formas de vida. Entretanto, 97,3% das águas estão em oceanos e mares – são águas salgadas, que não podem ser utilizadas diretamente pelo ser humano e para os ciclos vitais às demais espécies.
Restam 2,7% de água doce, aquela que o ser humano pode consumir imediatamente, mas mesmo assim essa água não está toda disponíveis para uso pelas sociedades. Destes 2,7%, a grande maioria, 2,34% - ou seja, mais de 90% da água doce do mundo – estão nos pólos. É água congelada, muito difícil de ser utilizada.
Somente 0,01% de toda a água da Terra estão em rios, lagoas e outros locais, sendo portanto água que pode ser captada para consumo imediato. Na prática é um volume ainda grande de recursos hídricos, mas uma série de fatores vem fazendo com que as reservas de água disponíveis para satisfazer todas as necessidades humanas – e das demais espécies vivas – sejam cada vez mais escassas.
Água no Brasil – O Brasil e um pais com alma de água. Estão em territorio brasileiro 12,5% das reservas de água doce no planeta. E como se, de cada 100 copos de água, 12 fossem do Brasil. Mas a água esta mal distribuida pelo pais. Na Amazonia, onde vivem 7,6% da populaçao brasileira (cerca de 12,9 milhoes de habitantes), estão mais de 70% dos recursos hidricos do pais. No estado de São Paulo, onde vivem 20% da população brasileira (cerca de 40 milhoes de pessoas), estão menos de 3% dos recursos hidricos. A má distribuição, fruto do processo historico de ocupação do territorio nacional (que se deu mais ao longo do litoral e nas regioes Sul e Sudeste, de mais alta renda), faz com que haja necessidade de maior atenção ainda para a proteção das águas, principalmente aquelas que servem os tres estados mais populosos - São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro (juntos somam mais de 40% da população brasileira). E no Sul de Minas Gerais estão as principais fontes de abastecimento de água desses estados.
JetSki brilha nas águas de Boa Esperança
O boliviano Antônio Claros, uma das feras que já brilharam nas águas de Boa Esperança (Foto João Pires/Fotojump)Por Renato Fabretti
O Campeonato Brasileiro de Jet Ski, que em 2008 está em sua 21ª ediçã,o é um dos eventos mais tradicionais no Sul de Minas Gerais, mais especificamente no município de Boa Esperança, localizado a 283 km de Belo Horizonte e 390 km de São Paulo. Pelo 11º ano consecutivo a cidade estará recebendo de 2 a 4 de maio, os principais pilotos do país e convidados internacionais, para a grande decisão da competição.
O palco desta festa será a imensa Represa de Furnas, localizada praticamente no centro de Boa Esperança e que proporciona excelentes condições para a realização do evento, com conforto e segurança, para os pilotos e público. Ao lado do Festival Nacional da Canção, realizado anualmente desde 1971, no mês de setembro, a etapa do Campeonato Brasileiro de Jet Ski são os dois principais eventos, não apenas de Boa Esperança, mas também dos municípios vizinhos.
A competição nesses 21 anos já passou por inúmeras cidades do país. Entretanto, os pilotos são categóricos em afirmar que Boa Esperança é a melhor de todas. Entre os motivos, citam o tamanho da represa, que possibilita a montagem de um circuito com bastante espaço e, conseqüentemente mais seguro. A profundidade do lago também é boa e permite belas manobras por parte dos pilotos que disputam a categoria Freestyle (manobras livres).
Porém, o ponto principal destacado pelos competidores é o apoio e carinho de público. As arquibancadas e boa parte da orla ficam completamente lotadas. Em 2007 os organizadores calcularam um público de aproximadamente 45 mil pessoas nos três dias de evento. “Em Boa Esperança nos sentimos em casa”, afirmam os pilotos de forma unânime.
A competição, que também define a equipe brasileira que disputará o Campeonato Mundial da modalidade, programado para o período de 4 a 12 de outubro, em Lake Havasu, no Arizona (EUA), conta com a presença de pilotos dos Estados de Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul, Goiás e Santa Catarina, além de convidados do Uruguai e Bolívia.
Boa parte dos cerca de 50 mil habitantes de Boa Esperança comparece para prestigiar os três dias de evento. Além deles, muitos visitantes da região, como Campos Gerais, Ilicinea, Carmo do Rio Claro, Guapé, Alfenas, Varginha. O município de Boa Esperança está localizado na micro região do Baixo Sapucaí e sua área total é de 620 km2. A economia é baseada na produção cafeeira, gado leiteiro e psicultura. A realização da etapa do Campeonato Brasileiro de Jet Ski também ajuda na economia do município, pois todos os hotéis da cidade ficam completamente lotados, além de gerar grande movimento em restaurantes, lanchonetes e supermercados.
A cidade também ganha com a divulgação em nível nacional. Boa Esperança, que começa sua história em 1797, também é privilegiada em recursos hídricos, pois somados os rios, ribeirões, afluentes e a Represa de Furnas somam uma área total do município de 136,57 km2. O lago que tem uma localização privilegiada possibilita a prática de vários esportes náuticos.
No calçadão em seu redor, é possível fazer caminhadas ou apenas passear. Para quem deseja descansar ou ler, por exemplo, estão disponíveis diversos bancos, quase sempre à sobra de uma árvore. Do outro lado, bares, restaurantes e belas residências.
Os amantes do ecoturismo têm em Boa Esperança uma excelente opção que é percorrer a região da Serra da Boa Esperança, que ficou imortalizada na canção do compositor Lamartine Babo. O local foi transformado, em 2007, em Parque Estadual da Serra da Boa Esperança, com uma área total de 5.873 hectares. Na forma de V ela abrange os municípios de Boa Esperança, Carmo do Rio Claro, Ilicínea e Guapé.
As paisagens são deslubrantes, com muitas cachoeiras e nascentes na região. O ponto mais alto atinge 1.392 metros. O destaque é o Pico do Branquinho, com 1200 metros.
Em novembro de 2007, Boa Esperança sediou o II Seminário de Integração Turística do Lago de Furnas, promovido pela Secretaria de Estado de Turismo (Setur), Sebrae e Associação dos Municípios do Lago de Furnas (Alago). O Projeto Estruturador do Turismo de Minas 2007/2010 inclui, entre outras medidas, o desenvolvimento turístico do Lago de Furnas.
Renato Fabretti é jornalista especializado em esportes
domingo, 10 de fevereiro de 2008
NO SUL DE MINAS, BATE O CORAÇÃO DO MELHOR FUTEBOL DO MUNDO
José Pedro Martins
Para jogar futebol como Pelé, só mesmo tendo três corações. Em 2008, o Brasil e o mundo lembram os 50 anos do aparecimento do tricordiano Edson Arantes do Nascimento como o maior jogador de todos os tempos. Foi na Copa de 1958, quando o menino magro, meio desajeitado, deu um chapéu espetacular no zagueiro e garantiu a magra vitória de 1 a 0 contra o País de Gales. Brasil campeão, o primeiro de cinco títulos mundiais, era o começo da trajetória impressionante do sul-mineiro genial.
Nascido a 23 de outubro de 1940, Pelé passou poucos anos na cidade natal, onde João Ramos do Nascimento, o querido pai Dondinho, jogou no Atlético. A família se transferiu para Lorena (SP) quando ele ainda tinha dois anos. Depois, por pouco tempo, a família morou em São Lourenço, onde João Ramos do Nascimento, o querido pai Dondinho, jogou no Vasco.
A estadia em São Lourenço foi curta, mas o suficiente para que o menino iniciasse ali o encanto pelo futebol, vendo as partidas do pai habilidoso. E também foi ali que nasceu o apelido. Edson ficava maravilhado com as defesas do goleiro do Vasco, Bilé, a quem chamava “Plé”. José Lino da Conceição Faustino, o Bilé, era de Dom Viçoso, a 20 quilômetros de de São Lourenço. A mutação para Pelé foi natural, coisa de língua enrolada de criança.
Foi assim, rápida, a passagem de Pelé pelas origens sul-mineiras. Mas as sementes tinham sido lançadas ali, irrigadas pelas águas sinuosas do rio Verde, em Três Corações, e pelas águas milagrosas das fontes de São Lourenço. Com um nome de batismo em homenagem ao inventor da lâmpada e do cinescópio, Thomas Edison, a arte brilhante de Pelé iluminaria para sempre o futebol brasileiro, consagrado como o melhor do mundo a partir do filho da doce Celeste.
Pois no Sul de Minas, berço do Atleta do Século, o coração do futebol brasileiro continua batendo, forte, na trajetória de vários clubes importantes na história do esporte que é paixão nacional. São muitos destaques, e o primeiro aqui no Planeta Sul de Minas Gerais é da Associação Atlética Caldense, um dos mais conhecidos e vitoriosos clubes da região, campeã mineiro de 2002 e campeã do Interior de Minas Gerais em 2004.
História quase centenária
A Caldense foi fundada a 16 de novembro de 1925, por amantes do futebol originários de clubes fundados anteriormente, como o Foot-Ball Club Caldense, criado em 1904, o que o tornaria, se ainda estivesse em atividade, um dos mais antigos do Brasil. Remanescentes de outro clube criado no começo do século, o Internacional Futebol Clube, igualmente contribuíram para a fundação da Associação Atlética Caldense, que teve como primeiros dirigentes João de Moura Gavião (presidente), professor Hugo Sarmento (vice-presidente), Romeu Chiacchio (primeiro secretário), Cherubim Borelli (segundo secretário) e Caetano Pereira (tesoureiro). A primeira diretoria foi eleita na sede provisória, a Photografia Selecta (de propriedade de João de Moura Gavião), na avenida Francisco Salles, bem pertinho do Hotel Lafayette, um dos endereços para a estadia na aristocrática Poços de Caldas, que já se firmava como uma das principais atrações turísticas do Brasil na época. A data considerada de fundação é 6 de novembro de 1872, quando o capitão José Bernardes Junqueira doou parte de suas terras para a estruturação do núcleo urbano em área já conhecida por suas fontes de águas sulfurosas.
No dia 3 de abril de 1926 ocorreu a fusão entre a Caldense e o Gambrinus F.C, sob a presidência de Bruno Fosco Pardini, hoteleiro e jornalista nascido na Itália, tendo sido editor, em 1916, de “A voz do trabalhador” (nas décadas de 1910 e 20 Poços de Caldas tinha forte movimento operário, de inspiração anarquista). Até o final da década de 1950 a Caldense teve várias sedes, entre elas o Palacete Cobra (antigo Cassino Gibimba, muito popular), na praça Pedro Sanches, e o nobre Politeama, na avenida Francisco Salles.
Entre as décadas de 1920 e 1940 Poços de Caldas viveu o auge do turismo, quando funcionavam os cassinos e o Palace Hotel, entre outros, eram locais de estadia de grandes nomes da política, da economia e da cultura do Brasil. Uma suite especial no Palace Hotel era reservada ao presidente Getúlio Vargas. Entre outros “monstros sagrados”, freqüentaram a cidade na época o jurista Rui Barbosa, o “Pai da Aviação” Santos Dumont, a estrela Carmen Miranda, os grandes nomes da música brasileira Orlando Silva, Dalva de Oliveira, Vicente Celestino, Carlos Galhardo e Silvio Caldas. A argentina Libertad Lamarque também esteve na cidade na época.
Enquanto a elite brasileira passeava pela cidade, a Caldense continuava a crescer e a apaixonar, pela atuação de craques como Odilon Domingues Júnior, o Zito, que jogou no time entre 1936 e 37, antes de se destacar por equipes como a Portuguesa de Desportos e Atlético Mineiro. Na década de 1940, passou pela Caldense o jogador Mauro Ramos, que se destacaria depois no São Paulo até se tornar campeão mundial pelo Brasil em 1958, apesar de ter ficado entre os reservas. Já no Santos, seria o capitão da equipe bi-campeã mundial, em 1962, no Chile.
O declínio do turismo em Poços de Caldas ocorreu a partir da proibição do jogo no Brasil, em 1946 (pelo Decreto-Lei 9.215, assinado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, segundo alguns por influência da mulher, Carmela Leite Dutra, a Dona Santinha, católica fervorosa), e da descoberta do antibiótico (pesquisas da penicilina em 1928 e 29 por Alexander Fleming, produção industrial desde 1940), a partir da qual diminuiu a busca das águas antes indicadas pelos médicos para vários tratamentos. De qualquer modo, prosseguiu o charme irresistível da cidade cercada de serras por todos os lados - Serra de São Domingos ao Norte, Serras do Gavião e do Caracol ao Sul, Serra do Selado e Serrote do Maranhão a Leste, e Serra de Poços de Caldas a Oeste.
Neste cenário deslumbrante o interesse pelo futebol se tornou cada vez maior, sobretudo após a espetacular conquista brasileira na Suécia, em 1958. Entre 1960 e 61 uma campanha legendária, quando a Caldense somou 57 partidas invictas, atraiu atenções nacionais para o clube. A euforia se concretizou no ano seguinte, quando, na presidência do Dr. Antonio Megale, foi oficializada a doação pelo benemérito Cristiano Osório de Oliveira Filho da área em que foram construídos o campo de futebol e outras instalações.
Uma das escalações mais famosas da Caldense é da década de 1970, quando o time contava com o genial meio-campista Ailton Lira (depois Santos e São Paulo, entre outros), Neto, (depois Santos), o zagueiro Buzuca e o goleiro Walter Tambaú (depois Palmeiras de São João da Boa Vista). Carlos Alberto Silva, que se tornaria o técnico do Guarani de Campinas, campeão brasileiro em 1978, se projetou exatamente com a Caldense no período.
Outro Walter, o Casagrande Júnior, jogou na Caldense no começo da década de 1980. Ele foi emprestado, para ganhar experiência, pelo Corinthians. Em março de 1981, em jogo memorável, Casagrande atuou pela Caldense na disputa com a seleção brasileira que se preparava para a Copa da Espanha, no ano seguinte. Jogou contra Socrates, que viria a ser seu grande companheiro de “Democracia Corinthiana”. Em 1979 foi inaugurado o Estádio Municipal “Ronaldo Junqueira”, onde a Caldense passou a mandar seus jogos. O antigo estádio foi desativado, e o espaço transformado em outras instalações desportivas.
Em 2002 a grande conquista da Caldense, com o título de campeã mineira. A final, no dia 5 de maio, foi disputada contra o Nacional de Uberaba, e Gustavinho e Carioca marcaram para a Caldense. Dois anos depois, campeã do Interior.
Grandes e significativas vitórias, no momento em que o poder público local, em conjunto com a sociedade, busca resgatar a força vibrante do turismo na “Cidade das Rosas”, como Poços de Caldas também é conhecida. Os vôos do periquito, símbolo da Caldense (saiba mais no site oficial: http://www.caldense.com.br/), espelham o vigor e a graça do futebol no Sul de Minas Gerais. O rebaixamento em 2007 com certeza será um rápido episódio.
José Pedro Martins é jornalista e escritor, autor, entre outros livros, de “O Tetra no País do Surreal” (co-autoria com Maria do Rosário Lino), de 1994.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
AS ÁGUAS DE LAMBARI MOLHAM A POESIA DE HENRIQUETA LISBOA
Henriqueta crescia como a cidade, impulsionada pela inauguração, a 24 de abril de 1911, do Cassino do Lago Guanabara, com a presença do presidente da República, marechal Hermes da Fonseca, e do governador do Estado de Minas, Júlio Bueno Brandão. Obra imponente, idealizada por Américo Werneck, o primeiro prefeito, que pretendia tornar Lambari uma referencia turística no Brasil como Vichy, na França.
É de mármore seu rosto.
Talvez já nem saiba como
Valem muralhas de pedra
A menina de Lambari, sempre tomada pelo assombro, publicou em 1977 “Celebração dos elementos água, ar, fogo, terra”, em Belo Horizonte. Clara demonstração da poesia telúrica, embebida na vida, de Henriqueta, professora de Literatura na Universidade Católica de Minas Gerais e na Escola de Biblioteconomia da UFMG. Foi a primeira mulher a chegar a Academia Mineira de Letras, em 1963 (bela homenagem, sem duvida, ao pioneirismo de Bárbara Heliodora...). Henriqueta Lisboa faleceu em BH, a 9 de outubro de 1985, reconhecida como um dos grandes nomes da literatura brasileira e portuguesa – embora sua obra ainda mereça ser mais conhecida. Alma sedenta de liberdade, uma obra de fortes raízes mineiras, como em “Romance do Aleijadinho” (Madrinha Lua, 1952)-
O moribundo sem força
E da distância dos séculos
A poesia da filha de Lambari ecoa no coração de todos que também amam a vida, a arte e a liberdade.
José Pedro Martins, jornalista e escritor, autor de “Pó Ética da Paz”, 1993, Sun Edições (co-autoria, com Maria do Rosário Lino)
NASCER NO SUL DE MINAS É TER PEDRA E ÁGUA NA ALMA
Rio Grande e outros principais cursos d' água do Sul de Minas(Mapa disponibilizado no Sistema Integrado de Informações Ambientais - Siam, vinculado à Secretaria Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD) de Minas Gerais)
José Pedro Martins
Tanto tempo longe, tantos quilômetros rodados e voados, tantas cidades como morada, mas a pergunta que sempre ecoa: o que é ser itamogiense e sul-mineiro? A equação é aparentemente simples, dessas que a gente aprende na escola e não esquece: Ita=pedra, Mogi = rio. Ita e Mogi, pedra e água, de Itamogi, mas também Itajubá, Itamonte, Itaú de Minas, Itutinga, Itanhandu, Itumirim, Itapeva, Cachoeira de Minas, Cambuquira (das “Águas Virtuosas”), Carmo da Cachoeira, Córrego do Bom Jesus, Cristais, Guapé, (o “tapete verde” das lagoas e rios...), Lambari (do peixe que povoa o Lago Guanabara...) e mais, muito mais...
Mas o que significa a mescla desses dois elementos, pedra e água, em um só coração? Ser brasileiro é, antes de tudo, ter alma de água. O Brasil tem água na alma. A formação do País e de seu povo se deu em função da água. Os povos indígenas encontrados pelos portugueses tinham cultura solidamente fundada no contato com a água. Os rios eram os seus meios de comunicação, eram as fontes primordiais de suas lendas, mitos e divindades, como Yara ou Moema, celebrizada em pinturas e textos que se tornaram clássicos.
Em sua obra-prima “Casa Grande & Senzala”, Gilberto Freyre destaca como o brasileiro deve aos povos indígenas, e sobretudo às mulheres índias, o gosto pelo banho, o prazer da água. Os portugueses, como outros europeus, assinalava Freyre, não gostavam de banho, e se espantavam com o hábito das canhas,as índias mergulhadas nos rios e lagos.
Mas não se pode esquecer que, para chegar à terra do pau-brasil, os portugueses tiveram de atravessar Mar Ignoto, aquele marzão desconhecido que eles domaram entre os séculos 15 e 16 e que os tornou por algum tempo senhores de grande parte do planeta. Sim, o mar tem importância enorme para o caráter dos portugueses e por tabela do nosso, os brasileiros.
O livro que imortalizou a epopéia dos portugueses pelos mares antes desconhecidos, “Os Lusíadas”, de Camões é a síntese dessa aventura, que impregnou o coração e a mente dos lusitanos com o cheiro, a magia e o perigo dos oceanos.
O mesmo pode ser dito em relação à cultura africana, que chegou ao Brasil na dolorosa trajetória dos navios negreiros pelo Oceano Atlântico. Antes de enfrentar os horrores das senzalas, os escravos lutavam contra os riscos inevitáveis de uma travessia oceânica como era feita na época, com o agravante das péssimas condições em que viajavam. Calcula-se que cerca de 40% de quem embarcava na África não chegava vivo às costas brasileiras. Os mortos eram, claro, atirados ao mar.
O mesmo mar para quem a cultura negra presta tema reverência até hoje, como pode ser visto nas belas festas para Yemanjá nos finais de ano. Festas que comovem e envolvem a todos, negros, brancos e mulatos, como uma das mais finas expressões do rico sincretismo religioso alicerçado em solo tupiniquim.
Os brasileiros estamos, portanto, localizados na confluência hídrica das culturas índia, branca e negra, banhados pela sabedoria, pela beleza, pela tristeza e pela esperança, que essa tríplice herança significa. E nem poderia ser diferente, em um país que tem 12,5% da água doce do planeta, um litoral de mais de sete mil quilômetros e a grande parte da maior reserva de água subterrânea do mundo, o Aqüífero Guarani.
Pois bem, se o brasileiro tem alma de água, e o sul-mineiro em geral? Além da água, esse símbolo perfeito de leveza, de transparência, de capacidade para se adaptar a várias situações, nós temos a enorme, ou melhor, a incomensurável sorte de termos, também, pedra na alma.
A pedra que simboliza a força em meio a qualquer adversidade. A pedra de quem defende a verdade porque eterna e libertadora. A pedra de quem se encanta com todos que ajudam a construir, tijolo por tijolo, um mundo novo, uma vida nova, uma cidade nova - a cidade onde se ama, se dialoga, se respeita e se completa no outro, a cidade que respeita os limites da natureza.
Tenho enorme, ou melhor, o incomensurável orgulho de ser itamogiense e sul-mineiro. De ter alma de pedra e de água. Todo sul-mineiro tem. Estão na região as fontes de água que abastecem áreas dos estados mais populosos e as maiores economias do país (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais). As águas daqui, da bacia do Rio Grande, geram 67% da energia elétrica produzida em Minas.
E as montanhas? Ah, as montanhas do Sul de Minas. A Mantiqueira e todas as outras. A Mantiqueira, “montanha que chora”, mãe de tantas fontes de águas. O seu contorno sinuoso, o seu friozinho, o seu céu aberto como portal nos conectando com o cosmo eterno, as estrelas que já morreram e continuando emitindo sua luz que faz estremecer o coração de quem ama a vida e vive para amar.
Temos pedra e água na alma, vibramos, no Sul de Minas, com a vida que lateja e exubera como cristais de água límpida.
José Pedro Martins é jornalista e escritor itamogiense e sul-mineiro, autor entre outros livros de “Terra Cantata - Uma história da sustentabilidade” e “A Década Desperdiçada – O Brasil, a Agenda 21 e a Rio+10”
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
TIRADENTES E A IDENTIDADE BRASILEIRA, DE JUIZ DE FORA PARA O MUNDO

Por José Pedro Martins
Um óleo sobre tela de grandes proporções, de 270 por 165 centímetros, causava incômodo, perturbação, aos visitantes da ala dedicada à arte do século 19 da Mostra Brasil 500 Anos, para muitos o maior evento cultural já realizado no País. A Mostra esteve vários meses no Pavilhão da Bienal no Ibirapuera, em São Paulo, no ano 2000.
A tela em questão, datada de 1893, é o retrato de uma Nação que em cinco séculos vem construindo sua identidade a partir da fragmentação e do dilaceramento. Esse era o motivo de tanta perplexidade com aquela pintura, que integra o acervo do Museu Mariano Procópio, de Juiz de Fora, um lugar em si, no Sul de Minas Gerais, cheio de significados.
O Museu Mariano Procópio foi originalmente uma “villa” construída pela família de Mariano Procópio, por ocasião da visita da família imperial a cidade, para inaugurar a Estrada União e Industria. O imperador viu o prédio pronto posteriormente, e na inauguração da Estrada ficou mesmo abrigado na residência de Procópio, que depois concluiu a construção, situada nas proximidades do encontro do ribeirão São Pedro com o rio Paraibuna.
Em 1915 o palacete, em estilo renascentista, se tornou o primeiro museu de Minas Gerais, com um acervo espetacular, de 45 mil obras. Entre elas, o quadro originalmente batizado de “Tiradentes Supliciado” e hoje conhecido como “Tiradentes Esquartejado” . Uma obra-prima, um retrato perfeito do esquartejamento da identidade brasileira. “Tiradentes Esquartejado”, de Pedro Américo de Figueiredo e Mello, é de fato um ícone perfeito do que tem sido a história brasileira. O seu poder simbólico é impressionante. A cabeça cortada do “Mártir da Independência” preside do alto a obra-prima, e a sua localização ao lado de um crucifixo é uma clara tentativa de associação com o calvário de Cristo, projetando uma imagem inevitável em um País construído sob a influencia da Igreja Católica. As vestes rotas, jogadas sobre o tronco igualmente amputado, completam a associação com a Via Crucis. O simbolismo do instigante quadro de Pedro Américo é ainda maior, se consideramos a disposição das três partes em que o corpo de Tiradentes foi dividido na tela. No conjunto, esses três blocos formam uma figura muito parecida com o mapa do Brasil como é conhecido hoje.
No alto, a cabeça cortada corresponde aproximadamente ao que seria no mapa do Brasil a região formada pelos estados de Roraima e Amapá. O tronco, coberto com os citados panos rasgados, tem um alinhamento horizontal muito semelhante ao traçado constituído pelo restante da Amazônia e o Nordeste no mapa brasileiro.
A perna esquerda, por sua vez, projetada no quadro no sentido vertical, perpendicular ao tronco, corresponde aproximadamente ao traçado das regiões Sudeste e Sul. O pintor talvez não tenha tido essa perspectiva, e muito menos a intenção, quando concebeu o quadro, mas essa é a impressão que se tem da visão de Pedro Américo a respeito da figura triste e dolorida daquele que se tornou um dos maiores mitos nacionais.
Esquartejamento, amputação. A identidade brasileira vem sendo moldada, em cinco séculos de confluência de civilizações, a partir de fragmentos, de pedaços estilhaçados. É muito significativo a esse respeito que alguns dos nomes que se destacaram em momentos de busca de uma identidade nacional, como o próprio Tiradentes, tenham terminado a vida esquartejados, pedaços embebidos em sangue espalhados por estradas e cidades.
A lembrança de Tiradentes em todo 21 de abril ocasiona, entre outras, esta reflexão: que país estamos construindo, a partir de um mosaico de influencias, de culturas diversas, de interesses contraditórios, de visões distintas sobre a nação? Nessa diversidade e’ que parece residir à vitalidade e a identidade do Brasil, e nela mora a esperança de um país melhor para todos. Mas que seja uma diversidade forjadora de uma identidade nacional, em um país sem desigualdades sociais – este é o nosso drama histórico.
Tiradentes foi um exemplo: se a Inconfidência Mineira não foi vitoriosa ao seu tempo, os seus frutos apareceram ao longo do tempo. E permanece o desejo de um país de fato independente, que ande com suas próprias pernas. Ele tem tudo para isso. O sonho do humilde alferes, que às vezes arrancava dentes para sobreviver, não morreu. Liberdade ainda que tardia.
A vida de Pedro Américo de Figueiredo e Mello, nascido na pequena Areia, na Paraíba, em 1843, não foi menos cheia de significados. Estudou na Europa e foi considerado o pintor da Corte, pela afinidade com D.Pedro II. O mais famoso quadro, “Independência ou Morte”, encomendado pelo governo paulista, consagrou a imagem que todo brasileiro faz do momento em que d.Pedro I pronunciou o famoso “ Grito do Ipiranga” .
Após a Proclamação da Republica, Pedro Américo foi eleito deputado pela Paraíba, mas preferiu continuar pintando, embora tenha apresentado projetos importantes, como de criação de museus e universidades. Para muitos estudiosos, “ Tiradentes esquartejado” reflete o momento pessoal do artista, que se encontrava doente. Faleceu em 1905 na querida Florença, Itália, onde viveu muitos anos. Seu retrato está na célebre sala de pintores famosos na Galeria degli Uffizzi. Após sua morte, seu corpo foi trasladado para o Brasil e repousa em um local na sua Areias. “ Tiradentes Esquartejado”, em Juiz de Fora, continua projetando luzes, e também enigmas, sobre um país que continua construindo sua identidade em meio à diversidade, à esperança e algumas dores.
José Pedro Martins e jornalista e escritor, Prêmio Ethos de Jornalismo 2003, pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
CARTA DO EDITOR AOS VIAJANTES AO PLANETA SUL DE MINAS GERAIS
Mapa de Minas Gerais - o Sul, no ponto estratégico entre São Paulo e Rio de Janeiro (Mapa disponibilizado no Sistema Integrado de Informações Ambientais - Siam, vinculado à Secretaria Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD) de Minas Gerais)terça-feira, 22 de janeiro de 2008
MORTALIDADE INFANTIL E O DRAMA DO SANEAMENTO NO BRASIL
Povos indígenas do Xingu, no Encontro dos Povos da Floresta em Altamira, Para - luta historica pela dignidade, desafios ainda grandes a superar como a mortalidade infantil, que merece olhar mais atento da sociedade brasileira (Foto José Pedro Martins)José Pedro Martins é jornalista e escritor, Premio Ethos de Jornalismo 2003, do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social
sábado, 19 de janeiro de 2008
A FALTA QUE FAZ O SANEAMENTO NO PAÍS COM ALMA DE ÁGUA

Rio Xingu, em Altamira, Pará: exuberância de vida, desafios a superar (Foto José Pedro Martins)
Por José Pedro Martins
O rio Xingu serve como uma moldura para Altamira, no Sudoeste do Pará, o maior município do Brasil e um dos maiores do mundo, com mais de 160 mil quilômetros quadrados. Um rio cheio de vida, que nasce ainda em Mato Grosso e percorre 1800 km até chegar à foz no Amazonas. Mas o Xingu, cuja vazão o governo federal pretende aproveitar para a construção de novas usinas hidrelétricas, também é um retrato perfeito das contradições do país que tem alma de água.
Um estudo do Ministério das Cidades, divulgado no final de 2005, mostrou que ainda na porção do Mato Grosso o rio Xingu sofre com a falta de saneamento básico. O estudo revelou que, em 14 municípios, apenas em Sinop existia aterro sanitário controlado para deposição de lixo urbano. A ausência de redes de coleta e tratamento de esgoto urbano também era uma constante.
O panorama não é diferente no trajeto do rio Xingu no Pará – assim como em toda bacia amazônica. O déficit no saneamento é inversamente proporcional à exuberância das águas. A destinação adequada dos resíduos ainda é um enorme dilema para os centros urbanos. As tradicionais casas de alvenaria, às margens ou sobre as águas, não têm outra alternativa a não ser destinar in natura os esgotos.
Os desafios são imensos, do tamanho do país. O Brasil tem 12% da disponibilidade hídrica do planeta, calculada em 1,5 milhão de metros cúbicos por segundo. A vazão média de água doce no Brasil é de cerca de 33 mil metros cúbicos por habitante/ano, o que representa 19 vezes o piso considerado ideal pelas Nações Unidas, que é de 1.700 m3 por habitante/ano.
A maior contribuição a essa riqueza hídrica é da bacia Amazônica, onde a vazão média é de 132 mil metros cúbicos por segundo. Entretanto, na mesma região Amazônica o índice urbano de coleta de esgotos é de apenas 9%, segundo a publicação GEO Brasil 2006, da Agência Nacional de Águas (ANA). E, curiosamente, na região onde as águas dominam, o índice urbano de abastecimento é de apenas 63%, o menor índice entre as 12 regiões hidrográficas em que o país está dividido, segundo classificação da ANA.
Em todo Brasil, o índice urbano de coleta de esgotos é de apenas 54%. Os maiores índices estão nas regiões hidrográficas dos rios Paraná (67%) e Atlântico Sudeste (61%), correspondente à Região Sudeste do país, que concentra a maior parte do PIB.
É evidente que ainda falta muito por fazer. A melhoria do saneamento básico é fundamental para o avanço geral da qualidade de vida e para uma melhor posição do Brasil no cenário internacional em termos de desenvolvimento humano.
A esperança de vida ao nascer, na faixa dos 80 anos entre os dez países com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), chegou em 2006 a 72,3 anos no Brasil, um avanço em relação a décadas passadas mas uma média que ainda o que o coloca nas últimas posições do grupo de 50 países com maior esperança de vida.
Uma redução mais substancial da mortalidade infantil também depende da melhoria do saneamento básico de forma geral, entre outros fatores. A taxa de mortalidade infantil no Brasil (até um ano de idade) foi de 24,9 por mil nascidos vivos em 2006, contra 69,1 por mil em 1980, mas ainda distante das médias dos países com maior IDH. Mais de 100 países estão à frente do Brasil em mortalidade infantil, como Singapura (2,30 por mil), Finlândia (3,57 por mil) e Suécia (2,76 por mil), de acordo com o The World Factbook 2007.
O Relatório de Desenvolvimento 2006, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), é cristalino sobre a relevância do saneamento básico e melhoria do acesso a água potável para uma maior dignidade de vida.
"As pessoas necessitam tanto de água como de oxigênio: sem ela não haveria vida. Mas, para além dos lares, a água também dá vida num sentido muito mais lato. As pessoas necessitam de água potável e de saneamento para manterem a sua saúde e dignidade. Mas para além dos lares, a água também sustenta os sistemas ecológicos e contribui para os sistemas de produção que mantêm os meios de subsistência", diz o Relatório. Sem água limpa para todos e saneamento básico, enfim, não há vida completa, não há dignidade e nem desenvolvimento sustentável.
José Pedro Martins é jornalista e escritor, autor de "A Década Desperdiçada – o Brasil, a Agenda 21 e a Rio+10", Editora Komedi, e "A luta pela água nas bacias dos rios Piracicaba e Capivari" (com João Jerônimo Monticelli), Editora EME, 1993
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
GASTOS COM ARMAS SUPERAM VERBAS PARA ÁGUA E SANEAMENTO

Os gastos globais com o setor de produção e venda de armas, entre outras despesas militares, continuam superando, em muito, os orçamentos com a viabilização de acesso a água potável e saneamento básico adequado. Com isso, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, estabelecidos pela Cúpula do Milênio, em 2000, para o horizonte de 2015, terão maior dificuldade de êxito.
Em função da queda do Muro de Berlim, da crise no Leste Europeu e do conseqüente fim da Guerra Fria, os gastos mundiais com a indústria bélica, que chegaram a US$ 1,1 trilhão em 1988, caíram, de US$ 960 bilhões em 1992 para US$ 834 bilhões em 1998, nas estimativas do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI).
Contudo, a repercussão dos atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova York e Washington, e depois a Guerra no Iraque, entre outros fatores, foram combustível suficiente para realimentar a corrida armamentista. Os gastos militares planetários atingiram US$ 892 bilhões em 2001 e US$ 948 bilhões em 2002, para chegar a US$ 1,158 trilhão em 2006, segundo o SIPRI Yearbook 2007.
Um elemento que chama a atenção, que inquieta, que incomoda, no relatório da organização sueca é o aumento exponencial de gastos militares justamente nas áreas de maior carência de saneamento básico e/ou acesso a água doce no planeta.
Entre 1988 e 2006 os gastos no setor bélico aumentaram 81% na Ásia e Oceania, 80% no Oriente Médio e 28% na África (sendo 109% no Norte da África, onde estão alguns dos pontos de escassez crônica de água e saneamento). No continente americano, onde está o maior volume de água doce do planeta, os gastos com armas aumentaram 9% no período, mas chegando a 46% de incremento na América Central e a 22% na América do Sul. O único continente onde houve redução nas despesas militares foi a Europa, com queda de 40% no período – o continente europeu gastou US$ 310 bilhões em 2006 no setor militar (contra US$ 513 bi em 1988), também indicando aumento em relação aos US$ 275 bilhões de 1998.
As informações sobre gastos com armas no mundo se tornam especialmente cruéis quando comparadas com a necessidade de investimentos em acesso a água e saneamento básico, o que por sua vez repercutiria na melhoria geral das condições de saúde, educação e desenvolvimento econômico e social como um todo.
O Relatório de Desenvolvimento Humano 2006, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), lembra da ocorrência de 1,8 milhões de mortes de crianças por ano em função da falta de acesso a água potável e saneamento. São 150 mil mortes por mês, ou cinco mil por dia – para se ter uma idéia da dimensão desse genocídio silencioso, os cálculos são de que, desde a invasão por tropas norteamericanas, em março de 2003, até novembro de 2006, a Guerra do Iraque provocou entre 100 mil e 150 mil vítimas fatais entre a população civil.
De acordo com o mesmo Relatório, as mortes em 2004 por diarréia – doença típica da falta de saneamento e falta de água limpa – foram seis vezes mais numerosas que a média anual de mortes em conflitos armados em todo planeta na década de 1990.
Sem água e saneamento, observa o PNUD, 443 milhões de dias escolares por ano são perdidos em função de doenças de veiculação hídrica, impedindo que as crianças vão à escola, o que representa um déficit gigantesco nas metas para a melhoria da educação em escala global. Na mesma linha, milhões de dias escolares são perdidos porque as crianças de muitos países são obrigadas a buscar água para as famílias – tarefa que se torna uma sobrecarga a mais de trabalho para milhões de mulheres, que têm o seu desenvolvimento humano pessoal especialmente afetado.
Segundo o PNUD, as metas de água potável para a África subsaariana serão atingidas em 2040 e as metas de saneamento, em 2076, mantidas as tendências atuais – nessa região da África, segundo o SIPRI, as despesas militares aumentaram mais da metade entre 1997 e 2006, indo de US$ 5,8 bilhões para US$ 9 bilhões. Entre os países árabes, de acordo com o PNUD 2006, as metas de água estão atrasadas em 27 anos – no Oriente Médio, os gastos militares aumentaram 80% entre 1988 e 2006, chegando nesse ano a US$ 72,5 bilhões.
O PNUD estima em US$ 10 bilhões por ano os investimentos suplementares necessários para se atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio em 2015 em água e saneamento, valor que representa menos de uma semana de gastos militares globais. "É um pequeno preço a pagar por um investimento que pode poupar milhões de vidas jovens, libertar um potencial de educação desperdiçado, salvar as pessoas de doenças que as privam da sua saúde e gerar um retorno econômico que impulsionará a prosperidade", diz o Relatório de Desenvolvimento Humano 2006.
Investir em água, em saneamento, e não em armas. O mesmo relatório observa que, na Etiópia, o orçamento militar é 10 vezes superior ao da água e saneamento – no Paquistão, 47 vezes.
Entretanto, a questão de investir mais em saneamento não se limita a opções políticas nos países mais pobres. Os países considerados mais desenvolvidos, de acordo com o SIPRI, são aqueles que mais gastam em despesas militares. Estados Unidos (US$ 528 bilhões), Reino Unido (US$ 59 bi), França (US$ 53 bi), China (US$ 49 bi) e Japão (US$ 43 bilhões) são os países com maiores despesas militares em 2006, seguidos de Alemanha (US$ 37 bi), Rússia (US$ 34 bi), Itália (US$ 29 bi), Arábia Saudita (US$ 29 bi) e Índia (US$ 23 bilhões).
O Brasil aparece em 14o lugar no ranking de gastos militares no relatório do SIPRI, com despesas de US$ 13,4 bilhões. Como se sabe, segundo o GEO Brasil 2006, da Agência Nacional de Águas (ANA), o índice urbano de coleta de esgotos no Brasil é de 54%, chegando a 9% na Amazônia, onde está o maior volume de água doce no planeta.
Os desafios estão colocados. Mais vida, mais água, mais saneamento para todos. Menos mortes, menos desperdício.
José Pedro Martins é jornalista e escritor, autor, entre outros, de "Agenda 21 local uma ecocivilização – Na Era da Nanocultura e da Ecopolítica", Editora Komedi, 2005
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
ANO DO SANEAMENTO, ANO DA VIDA
2008, Ano Internacional do Saneamento e do Planeta Terra, oportunidade única para uma reflexão sobre os rumos da jornada humana. Depois do impacto provocado pelos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), e da frustração com os rumos das negociações em torno do aquecimento global, o momento é de colocar os pés no chão e de olhar o horizonte: o que pode ser feito, e rápido, para dar mais esperança de vida para bilhões de pessoas? O que deve ser executado, e logo, para cessar a marcha da destruição da biodiversidade? Quais medidas efetivas para a proteção dos recursos hídricos, pelo futuro da humanidade, dos ecossistemas, da vida toda?
Com o título "Além da escassez: poder, pobreza e a crise mundial da água", o Relatório do Desenvolvimento Humano 2006, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), ratificou como a escassez de água potável para mais de 1 bilhão de pessoas e de saneamento básico adequado para quase 3 bilhões de seres humanos não é resultado de fatores climáticos ou geográficos. O que falta, assinala o PNUD, é vontade política, é boa gestão, é aparato institucional que garanta esse direito humano básico.
Assim, o Ano Internacional do Saneamento em 2008, também Ano Internacional do Planeta Terra, se configura como grande oportunidade para avanços consideráveis na reflexão sobre o imperativo de ampliação do saneamento básico em escala global.
A decisão da ONU é justificada, segundo resolução aprovada pela Assembléia Geral em dezembro de 2006, em função do "progresso lento e insuficiente em proporcionar serviços básicos de saneamento", além do "impacto da falta de saneamento na saúde das pessoas, na redução da pobreza e no desenvolvimento econômico e social, e no meio ambiente, em particular nos recursos hídricos".
Os números gerais falam por si mesmos. São quase 5 mil mortes por dia de crianças provocadas por doenças de veiculação hídrica, sobretudo a diarréia, em todo mundo.
Os custos para sanar o déficit mundial de saneamento são reduzidos diante de outros gastos. Basta uma semana do que se gasta em produção e vendas de armas para dar condições adequadas de água e saneamento para milhões e milhões de pessoas. O mercado de armas movimenta 1 trilhão de dólares por ano. Quantas vidas não seriam salvas se caísse somente pela metade esse negócio da morte?
Que 2008 seja, então, um ano da virada, de ênfase na defesa da vida, que um saneamento básico adequado pode proporcionar. E que os bons exemplos que vêm ocorrendo, em vários pontos do planeta, sejam inspiradores para uma mudança de postura dos gestores, rumo a uma maior prioridade ao saneamento básico. É uma questão ética, fundamental para o futuro do planeta e da humanidade.
(José Pedro Martins é jornalista e escritor, Prêmio Ethos de Jornalismo 2003, do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social)