quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

ÁGUAS DO SUL DE MINAS GERAIS, QUESTÃO DE “SEGURANÇA NACIONAL”

Rio Grande e outros principais cursos d' água do Sul de Minas(Mapa disponibilizado no Sistema Integrado de Informações Ambientais - Siam, vinculado à Secretaria Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD) de Minas Gerais)

Por José Pedro Martins

Paulistanos e cariocas cultivam uma rivalidade histórica: qual é a capital cultural e econômica do Brasil, São Paulo ou Rio de Janeiro? Uma coisa, entretanto, moradores das regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro têm em comum: o abastecimento de água dessas regiões – a água para o banho diário, para fazer comida, para movimentar as indústrias e para irrigar a agricultura – depende de rios que nascem em Minas Gerais, mais precisamente nas encostas da Serra da Mantiqueira, no sul mineiro.

Ao ajudar a abastecer as duas principais regiões econômicas do país, responsáveis por quase metade do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, as águas do Sul de Minas Gerais não são, portanto, um assunto que diz respeito apenas aos mineiros – é uma questão de segurança nacional. Segurança nacional entendida como as necessárias condições para que haja qualidade de vida para toda população e sustentabilidade no processo produtivo e proteção dos recursos naturais. Assim, garantir a qualidade e quantidade adequada dos recursos hídricos do Sul de Minas Gerais é um tema que deve fazer parte, de forma permanente, da agenda de governos, empresas e sociedade em geral, se o Brasil efetivamente deseja transitar de modo seguro para o desenvolvimento sustentável.

A importância do Sul de Minas Gerais para o abastecimento de água das maiores áreas urbanas do Brasil é reconhecida pelo secretário nacional de Recursos Hidricos e Ambiente Urbano, Eustáquio Luciano Zica. “O Sul de Minas, a partir das encostas da Serra da Mantiqueira, é o maior responsável pelo suprimento de água do Brasil, apesar da Amazônia ter muito maior volume, por exemplo. É muito importante para o país a proteção das águas do Sul de Minas, compreendendo as nascentes, as matas ciliares, reservatórios e tudo o que garante a sua preservação”, afirmou o secretário, em entrevista ao Planeta Sul de Minas Gerais.

As águas do Sul de Minas Gerais compreendem os recursos hídricos situados nas bacias dos rios Grande e Paraíba do Sul e, no extremo sul, dos rios Piracicaba/Jaguari, além das nascentes do rio Mogi Guaçu. Com 110.025 quilômetros quadrados, a bacia do Rio Grande é uma das maiores de Minas Gerais. Excluindo-se a porção situada no Triângulo Mineiro (do Baixo Rio Grande), a área de drenagem da bacia do Rio Grande no sul de Minas Gerais é de 91.241 km2 . A Bacia do Rio Grande é responsável por 67% da energia elétrica gerada em território de Minas Gerais.

A bacia do Rio Grande é integrada por oito sub-bacias hidrográficas: Alto Rio Grande (onde estão as nascentes do rio Grande, na Serra da Mantiqueira, no município de Bocaina), rios das Mortes (nascentes em Barbacena e Senhora dos Remédios) e Jacaré (nasce na Serra do Galba, em São Tiago), do reservatório de Furnas (bacia localizada entre os municípios de São José da Barra e São João Batista do Glória, com cidades importantes como Alfenas, Varginha e Lavras), rio Verde (onde estão municípios como São Lourenço), rio Sapucaí (também nasce na Serra da Mantiqueira, em Campos do Jordão, São Paulo, e deságua no reservatório de Furnas), Mogi Guaçu e Pardo (nascem em Minas Gerais e seguem trajeto em São Paulo), Médio Rio Grande (onde estão os municípios de Itamogi, São Sebastião do Paraíso e Passos, entre outros) e Baixo Rio Grande (parte da bacia do Rio Grande no Triângulo Mineiro, até a foz do rio, depois de percorrer 1300 km, encontrando-se com o rio Paranaíba para formar o grande Rio Paraná).

Com seus três milhões de moradores, a Bacia do Rio Grande tem uma importância histórica para Minas Gerais e para o Brasil. É onde está o famoso Circuito das Águas (de Caxambu, Cambuquira, etc), o reservatório de Furnas tão importante para o abastecimento de água e de energia elétrica, a maior parte do trajeto mineiro da rodovia Fernão Dias (que liga São Paulo a Belo Horizonte) e onde é cultivada a maior parte do café produzido em território mineiro – o café responde por 30% do PIB mineiro. Um quarto da produção de café do Brasil sai do Sul de Minas, em mais uma contribuição cultural e econômica essencial da região.

Algumas fontes de risco às águas da bacia do Rio Grande merecem grande atenção. Na bacia do Alto Rio Grande, a maior fonte de pressão sobre os recursos hídricos, segundo o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM), é o lançamento de esgotos sanitários nos rios Aiuruoca e Capivari.

O professor Sérgio Mário Regina, engenheiro agrônomo e pesquisador da Epamig, presidente do 1º Comitê de Sub-Bacia Hidrográfica do Brasil (do Rio Verde), advertiu por sua vez para o desmatamento na região do Rio Verde. Ele acredita que, para cada 100 hectares desmatados na bacia, somente um foi reflorestado, conforme depoimento à revista “Minas Faz Ciência”.

Na região do entorno do reservatório de Furnas, um fator preocupante é a ausência histórica de uma política de proteção das matas ciliares e das áreas de preservação permanente, nas margens dos rios e da represa. Sem as matas ciliares, os leitos dos rios e represas ficam mais expostos à erosão e ao assoreamento. É fundamental, também, um estudo aprofundado dos potenciais impactos no reservatório do aquecimento global. Como o aquecimento das temperaturas afetará o nível de reservatórios como o de Furnas? Pergunta fundamental para o Brasil, que depende em mais de 70% de sua eletricidade de fontes hídricas. O reservatório de Furnas já sofre, periodicamente, com grandes estiagens – o nível das águas cai muito, e com ele o turismo em torno de Furnas, entre outras atividades.

Na bacia do Rio Sapucaí, o IGAM adverte para a ocorrência de queimadas e desmatamento, além do lançamento de efluentes industriais. Na bacia dos rios Mogi Guaçu e Pardo, ocorre uso intensivo de agrotóxicos (sobretudo nas culturas de batata e morango) e lançamento de efluentes industrias e urbanos sem tratamento.

São várias ameaças, portanto, às águas da bacia do Rio Grande. É essencial que haja uma atenção mais rigorosa, para que essa região do Sul de Minas tenha de fato um desenvolvimento sustentável – crescimento econômico, qualidade de vida, mas com proteção do meio ambiente em geral e das águas em particular.


(Matéria também publicada no jornal "Itamogi Noticias")

José Pedro Martins é jornalista e escritor, autor de "A luta pela água nas bacias dos rios Piracicaba e Capivari" (com João Jeronimo Monticelli), de 1993, e "Agua e cidadania em Campinas e região", 2004

RIQUEZA E ABASTECIMENTO DE SÃO PAULO E RIO DE JANEIRO DEPENDEM DO SUL DE MINAS

A importância dos rios do Sul de Minas Gerais para a economia brasileira fica evidente pela sua contribuição às duas regiões metropolitanas mais ricas do país. Rio de Janeiro e São Paulo dependem, diretamente, das águas das bacias dos rios Paraíba do Sul e Piracicaba/Jaguari.
A bacia do Rio Paraíba do Sul é integrada por duas bacias, a dos afluentes mineiros dos rios Preto e Paraibuna e a dos rios Pomba e Muriaé. A região da bacia do Rio Paraíba do Sul é onde está o importante município de Juiz de Fora. É uma região de grande influência do Rio de Janeiro – os mineiros dessa região até torcem para times cariocas.
O Rio Paraíba do Sul nasce pela junção dos rios Paraitinga e Paraibuna, ainda no estado de São Paulo, mas depois atravessa Minas Gerais (na Zona da Mata) antes de chegar ao território do Rio de Janeiro. Em Minas Gerais estão 88 dos 180 municípios que compõem a bacia do Rio Paraíba do Sul. Cerca de 14 milhões de moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro é abastecida com 47 mil litros de água por segundo da bacia do Rio Paraíba do Sul. Ou seja, a Bacia que tem grande parte de seu território no Sul de Minas Gerais é responsável pelo abastecimento da segunda região economicamente mais forte do Brasil, correspondendo a cerca de 10% do PIB nacional.
A mesma importância econômica tem a bacia dos rios Piracicaba e Jaguari, no extremo Sul de Minas Gerais. A região compreende os municípios de Camanducaia, Extrema, Toledo e Itapeva, onde vivem pouco mais de 50 mil moradores. É nessa região de 1.161 km² que estão as nascentes dos rios Atibaia e Jaguari, que são os principais rios formadores da bacia do rio Piracicaba. Esta é a bacia responsável pelo abastecimento de metade da Grande São Paulo, ou cerca de 10 milhões de pessoas, através do Sistema Cantareira. O Cantareira é composto por cinco reservatórios, que armazenam as águas dos rios que nascem em Minas Gerais. Proteger as nascentes desses rios, nas encostas na Mantiqueira, significa, portanto, garantir água para a região mais populosa e rica do Brasil. Dado que confirma como e uma questão estratégica para o pais proteger as águas do Sul de Minas Gerais.
Do mesmo modo, as águas do rio Mogi-Guacu, que nasce em Minas Gerais, são fundamentais para abastecimento de cidades mineiras e paulistas. A Bacia Hidrográfica do Mogi-Guaçu compreende uma área de 35.742 km², sendo 17% em Minas Gerais e 83% em São Paulo. São 40 municípios, com população de cerca de 1,5 milhão de habitantes. Entre outros municípios estão Andradas, Bom Repouso, Inconfidentes, Jacutinga, Monte Sião e Ouro Fino (MG) e Serra Negra, Socorro, Lindóia, Águas de Lindóia, Itapira, Mogi Guaçu e Espírito S. do Pinhal (SP). Resta pouca vegetação nativa na área da bacia. (Por José Pedro Martins)

ALFABETO DA ÁGUA

Água, o que é – Água é um corpo líquido à temperatura normal, insípido, incolor e inodoro, formado por duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio. Sua representação simbólica é H2O.

A importância da água é especial para o ser humano, que é constituído em mais de 70% por essa substância. Alguns órgãos e outras partes do ser humano têm ainda mais água em sua composição. O sangue é constituído em mais de 90% de água. Todos os processos biológicos que garantem a vida humana, e demais espécies, no planeta dependem diretamente da água.


Água no planeta Terra - Mais de dois terços da superfície do planeta Terra são constituídos de água, o que demonstra a sua importância para todos os ciclos vitais, de todas as formas de vida. Entretanto, 97,3% das águas estão em oceanos e mares – são águas salgadas, que não podem ser utilizadas diretamente pelo ser humano e para os ciclos vitais às demais espécies.

Restam 2,7% de água doce, aquela que o ser humano pode consumir imediatamente, mas mesmo assim essa água não está toda disponíveis para uso pelas sociedades. Destes 2,7%, a grande maioria, 2,34% - ou seja, mais de 90% da água doce do mundo – estão nos pólos. É água congelada, muito difícil de ser utilizada.

Somente 0,01% de toda a água da Terra estão em rios, lagoas e outros locais, sendo portanto água que pode ser captada para consumo imediato. Na prática é um volume ainda grande de recursos hídricos, mas uma série de fatores vem fazendo com que as reservas de água disponíveis para satisfazer todas as necessidades humanas – e das demais espécies vivas – sejam cada vez mais escassas.

Água no Brasil – O Brasil e um pais com alma de água. Estão em territorio brasileiro 12,5% das reservas de água doce no planeta. E como se, de cada 100 copos de água, 12 fossem do Brasil. Mas a água esta mal distribuida pelo pais. Na Amazonia, onde vivem 7,6% da populaçao brasileira (cerca de 12,9 milhoes de habitantes), estão mais de 70% dos recursos hidricos do pais. No estado de São Paulo, onde vivem 20% da população brasileira (cerca de 40 milhoes de pessoas), estão menos de 3% dos recursos hidricos. A má distribuição, fruto do processo historico de ocupação do territorio nacional (que se deu mais ao longo do litoral e nas regioes Sul e Sudeste, de mais alta renda), faz com que haja necessidade de maior atenção ainda para a proteção das águas, principalmente aquelas que servem os tres estados mais populosos - São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro (juntos somam mais de 40% da população brasileira). E no Sul de Minas Gerais estão as principais fontes de abastecimento de água desses estados.

JetSki brilha nas águas de Boa Esperança

O boliviano Antônio Claros, uma das feras que já brilharam nas águas de Boa Esperança (Foto João Pires/Fotojump)

Por Renato Fabretti

O Campeonato Brasileiro de Jet Ski, que em 2008 está em sua 21ª ediçã,o é um dos eventos mais tradicionais no Sul de Minas Gerais, mais especificamente no município de Boa Esperança, localizado a 283 km de Belo Horizonte e 390 km de São Paulo. Pelo 11º ano consecutivo a cidade estará recebendo de 2 a 4 de maio, os principais pilotos do país e convidados internacionais, para a grande decisão da competição.
O palco desta festa será a imensa Represa de Furnas, localizada praticamente no centro de Boa Esperança e que proporciona excelentes condições para a realização do evento, com conforto e segurança, para os pilotos e público. Ao lado do Festival Nacional da Canção, realizado anualmente desde 1971, no mês de setembro, a etapa do Campeonato Brasileiro de Jet Ski são os dois principais eventos, não apenas de Boa Esperança, mas também dos municípios vizinhos.
A competição nesses 21 anos já passou por inúmeras cidades do país. Entretanto, os pilotos são categóricos em afirmar que Boa Esperança é a melhor de todas. Entre os motivos, citam o tamanho da represa, que possibilita a montagem de um circuito com bastante espaço e, conseqüentemente mais seguro. A profundidade do lago também é boa e permite belas manobras por parte dos pilotos que disputam a categoria Freestyle (manobras livres).
Porém, o ponto principal destacado pelos competidores é o apoio e carinho de público. As arquibancadas e boa parte da orla ficam completamente lotadas. Em 2007 os organizadores calcularam um público de aproximadamente 45 mil pessoas nos três dias de evento. “Em Boa Esperança nos sentimos em casa”, afirmam os pilotos de forma unânime.
A competição, que também define a equipe brasileira que disputará o Campeonato Mundial da modalidade, programado para o período de 4 a 12 de outubro, em Lake Havasu, no Arizona (EUA), conta com a presença de pilotos dos Estados de Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul, Goiás e Santa Catarina, além de convidados do Uruguai e Bolívia.
Boa parte dos cerca de 50 mil habitantes de Boa Esperança comparece para prestigiar os três dias de evento. Além deles, muitos visitantes da região, como Campos Gerais, Ilicinea, Carmo do Rio Claro, Guapé, Alfenas, Varginha. O município de Boa Esperança está localizado na micro região do Baixo Sapucaí e sua área total é de 620 km2. A economia é baseada na produção cafeeira, gado leiteiro e psicultura. A realização da etapa do Campeonato Brasileiro de Jet Ski também ajuda na economia do município, pois todos os hotéis da cidade ficam completamente lotados, além de gerar grande movimento em restaurantes, lanchonetes e supermercados.
A cidade também ganha com a divulgação em nível nacional. Boa Esperança, que começa sua história em 1797, também é privilegiada em recursos hídricos, pois somados os rios, ribeirões, afluentes e a Represa de Furnas somam uma área total do município de 136,57 km2. O lago que tem uma localização privilegiada possibilita a prática de vários esportes náuticos.
No calçadão em seu redor, é possível fazer caminhadas ou apenas passear. Para quem deseja descansar ou ler, por exemplo, estão disponíveis diversos bancos, quase sempre à sobra de uma árvore. Do outro lado, bares, restaurantes e belas residências.
Os amantes do ecoturismo têm em Boa Esperança uma excelente opção que é percorrer a região da Serra da Boa Esperança, que ficou imortalizada na canção do compositor Lamartine Babo. O local foi transformado, em 2007, em Parque Estadual da Serra da Boa Esperança, com uma área total de 5.873 hectares. Na forma de V ela abrange os municípios de Boa Esperança, Carmo do Rio Claro, Ilicínea e Guapé.
As paisagens são deslubrantes, com muitas cachoeiras e nascentes na região. O ponto mais alto atinge 1.392 metros. O destaque é o Pico do Branquinho, com 1200 metros.
Em novembro de 2007, Boa Esperança sediou o II Seminário de Integração Turística do Lago de Furnas, promovido pela Secretaria de Estado de Turismo (Setur), Sebrae e Associação dos Municípios do Lago de Furnas (Alago). O Projeto Estruturador do Turismo de Minas 2007/2010 inclui, entre outras medidas, o desenvolvimento turístico do Lago de Furnas.

Renato Fabretti é jornalista especializado em esportes


domingo, 10 de fevereiro de 2008

NO SUL DE MINAS, BATE O CORAÇÃO DO MELHOR FUTEBOL DO MUNDO

José Pedro Martins

Para jogar futebol como Pelé, só mesmo tendo três corações. Em 2008, o Brasil e o mundo lembram os 50 anos do aparecimento do tricordiano Edson Arantes do Nascimento como o maior jogador de todos os tempos. Foi na Copa de 1958, quando o menino magro, meio desajeitado, deu um chapéu espetacular no zagueiro e garantiu a magra vitória de 1 a 0 contra o País de Gales. Brasil campeão, o primeiro de cinco títulos mundiais, era o começo da trajetória impressionante do sul-mineiro genial.

Nascido a 23 de outubro de 1940, Pelé passou poucos anos na cidade natal, onde João Ramos do Nascimento, o querido pai Dondinho, jogou no Atlético. A família se transferiu para Lorena (SP) quando ele ainda tinha dois anos. Depois, por pouco tempo, a família morou em São Lourenço, onde João Ramos do Nascimento, o querido pai Dondinho, jogou no Vasco.

A estadia em São Lourenço foi curta, mas o suficiente para que o menino iniciasse ali o encanto pelo futebol, vendo as partidas do pai habilidoso. E também foi ali que nasceu o apelido. Edson ficava maravilhado com as defesas do goleiro do Vasco, Bilé, a quem chamava “Plé”. José Lino da Conceição Faustino, o Bilé, era de Dom Viçoso, a 20 quilômetros de de São Lourenço. A mutação para Pelé foi natural, coisa de língua enrolada de criança.

Foi assim, rápida, a passagem de Pelé pelas origens sul-mineiras. Mas as sementes tinham sido lançadas ali, irrigadas pelas águas sinuosas do rio Verde, em Três Corações, e pelas águas milagrosas das fontes de São Lourenço. Com um nome de batismo em homenagem ao inventor da lâmpada e do cinescópio, Thomas Edison, a arte brilhante de Pelé iluminaria para sempre o futebol brasileiro, consagrado como o melhor do mundo a partir do filho da doce Celeste.

Pois no Sul de Minas, berço do Atleta do Século, o coração do futebol brasileiro continua batendo, forte, na trajetória de vários clubes importantes na história do esporte que é paixão nacional. São muitos destaques, e o primeiro aqui no Planeta Sul de Minas Gerais é da Associação Atlética Caldense, um dos mais conhecidos e vitoriosos clubes da região, campeã mineiro de 2002 e campeã do Interior de Minas Gerais em 2004.

História quase centenária

A Caldense foi fundada a 16 de novembro de 1925, por amantes do futebol originários de clubes fundados anteriormente, como o Foot-Ball Club Caldense, criado em 1904, o que o tornaria, se ainda estivesse em atividade, um dos mais antigos do Brasil. Remanescentes de outro clube criado no começo do século, o Internacional Futebol Clube, igualmente contribuíram para a fundação da Associação Atlética Caldense, que teve como primeiros dirigentes João de Moura Gavião (presidente), professor Hugo Sarmento (vice-presidente), Romeu Chiacchio (primeiro secretário), Cherubim Borelli (segundo secretário) e Caetano Pereira (tesoureiro). A primeira diretoria foi eleita na sede provisória, a Photografia Selecta (de propriedade de João de Moura Gavião), na avenida Francisco Salles, bem pertinho do Hotel Lafayette, um dos endereços para a estadia na aristocrática Poços de Caldas, que já se firmava como uma das principais atrações turísticas do Brasil na época. A data considerada de fundação é 6 de novembro de 1872, quando o capitão José Bernardes Junqueira doou parte de suas terras para a estruturação do núcleo urbano em área já conhecida por suas fontes de águas sulfurosas.

No dia 3 de abril de 1926 ocorreu a fusão entre a Caldense e o Gambrinus F.C, sob a presidência de Bruno Fosco Pardini, hoteleiro e jornalista nascido na Itália, tendo sido editor, em 1916, de “A voz do trabalhador” (nas décadas de 1910 e 20 Poços de Caldas tinha forte movimento operário, de inspiração anarquista). Até o final da década de 1950 a Caldense teve várias sedes, entre elas o Palacete Cobra (antigo Cassino Gibimba, muito popular), na praça Pedro Sanches, e o nobre Politeama, na avenida Francisco Salles.

Entre as décadas de 1920 e 1940 Poços de Caldas viveu o auge do turismo, quando funcionavam os cassinos e o Palace Hotel, entre outros, eram locais de estadia de grandes nomes da política, da economia e da cultura do Brasil. Uma suite especial no Palace Hotel era reservada ao presidente Getúlio Vargas. Entre outros “monstros sagrados”, freqüentaram a cidade na época o jurista Rui Barbosa, o “Pai da Aviação” Santos Dumont, a estrela Carmen Miranda, os grandes nomes da música brasileira Orlando Silva, Dalva de Oliveira, Vicente Celestino, Carlos Galhardo e Silvio Caldas. A argentina Libertad Lamarque também esteve na cidade na época.

Enquanto a elite brasileira passeava pela cidade, a Caldense continuava a crescer e a apaixonar, pela atuação de craques como Odilon Domingues Júnior, o Zito, que jogou no time entre 1936 e 37, antes de se destacar por equipes como a Portuguesa de Desportos e Atlético Mineiro. Na década de 1940, passou pela Caldense o jogador Mauro Ramos, que se destacaria depois no São Paulo até se tornar campeão mundial pelo Brasil em 1958, apesar de ter ficado entre os reservas. Já no Santos, seria o capitão da equipe bi-campeã mundial, em 1962, no Chile.

O declínio do turismo em Poços de Caldas ocorreu a partir da proibição do jogo no Brasil, em 1946 (pelo Decreto-Lei 9.215, assinado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, segundo alguns por influência da mulher, Carmela Leite Dutra, a Dona Santinha, católica fervorosa), e da descoberta do antibiótico (pesquisas da penicilina em 1928 e 29 por Alexander Fleming, produção industrial desde 1940), a partir da qual diminuiu a busca das águas antes indicadas pelos médicos para vários tratamentos. De qualquer modo, prosseguiu o charme irresistível da cidade cercada de serras por todos os lados - Serra de São Domingos ao Norte, Serras do Gavião e do Caracol ao Sul, Serra do Selado e Serrote do Maranhão a Leste, e Serra de Poços de Caldas a Oeste.

Neste cenário deslumbrante o interesse pelo futebol se tornou cada vez maior, sobretudo após a espetacular conquista brasileira na Suécia, em 1958. Entre 1960 e 61 uma campanha legendária, quando a Caldense somou 57 partidas invictas, atraiu atenções nacionais para o clube. A euforia se concretizou no ano seguinte, quando, na presidência do Dr. Antonio Megale, foi oficializada a doação pelo benemérito Cristiano Osório de Oliveira Filho da área em que foram construídos o campo de futebol e outras instalações.

Uma das escalações mais famosas da Caldense é da década de 1970, quando o time contava com o genial meio-campista Ailton Lira (depois Santos e São Paulo, entre outros), Neto, (depois Santos), o zagueiro Buzuca e o goleiro Walter Tambaú (depois Palmeiras de São João da Boa Vista). Carlos Alberto Silva, que se tornaria o técnico do Guarani de Campinas, campeão brasileiro em 1978, se projetou exatamente com a Caldense no período.

Outro Walter, o Casagrande Júnior, jogou na Caldense no começo da década de 1980. Ele foi emprestado, para ganhar experiência, pelo Corinthians. Em março de 1981, em jogo memorável, Casagrande atuou pela Caldense na disputa com a seleção brasileira que se preparava para a Copa da Espanha, no ano seguinte. Jogou contra Socrates, que viria a ser seu grande companheiro de “Democracia Corinthiana”. Em 1979 foi inaugurado o Estádio Municipal “Ronaldo Junqueira”, onde a Caldense passou a mandar seus jogos. O antigo estádio foi desativado, e o espaço transformado em outras instalações desportivas.

Em 2002 a grande conquista da Caldense, com o título de campeã mineira. A final, no dia 5 de maio, foi disputada contra o Nacional de Uberaba, e Gustavinho e Carioca marcaram para a Caldense. Dois anos depois, campeã do Interior.

Grandes e significativas vitórias, no momento em que o poder público local, em conjunto com a sociedade, busca resgatar a força vibrante do turismo na “Cidade das Rosas”, como Poços de Caldas também é conhecida. Os vôos do periquito, símbolo da Caldense (saiba mais no site oficial: http://www.caldense.com.br/), espelham o vigor e a graça do futebol no Sul de Minas Gerais. O rebaixamento em 2007 com certeza será um rápido episódio.


José Pedro Martins é jornalista e escritor, autor, entre outros livros, de “O Tetra no País do Surreal” (co-autoria com Maria do Rosário Lino), de 1994.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

AS ÁGUAS DE LAMBARI MOLHAM A POESIA DE HENRIQUETA LISBOA

Por José Pedro Martins

“Henriqueta Lisboa é hoje um dos poetas mais puros do Brasil. A forma límpida, cristal sem jaça de sua poesia, a agudeza das imagens, a densidade das palavras, a segurança do ritmo, sua humildade, constituem sua força expressiva e comunicativa.” As palavras são de Sérgio Milliet, a respeito de Henriqueta Lisboa (1901-1985), a poeta nascida em Lambari, Sul de Minas Gerais.
Impossível não associar as palavras do grande Milliet à infância de Henriqueta em Lambari, ao contato direto e permanente com as águas famosas da cidade. A cidade das Águas Virtuosas, como foi inicialmente denominada, em função das águas minerais descobertas na década de 1780 na Fazenda Trás da Serra, de Antonio Araújo Dantas, morador em Campanha.
As águas, límpidas como a poesia de Henriqueta Lisboa, determinaram o futuro de Lambari, transformada em estação balnearia no século 19 e que recebeu a visita, entre outros, da Princesa Isabel e Conde D’ Eu em 1868.
Águas Virtuosas torna-se distrito de paz em 1891, e dez anos depois (a 16 de setembro de 1901) já acontece a criação do município de Águas Virtuosas, pela lei estadual nº 3119. A instalação do município ocorre a 2 de janeiro de 1902.
O município foi criado, portanto, no ano de nascimento, a 15 de julho, de Henriqueta Lisboa, filha do farmacêutico e depois deputado federal João de Almeida Lisboa e de Maria de Vilhena Lisboa. A morte da irmãzinha (a morte sempre estaria presente em sua obra), o espanto com o mundo, a descoberta da vida enigmática, marcas de uma infância resumida em “Infância” (Prisioneiro da Noite,1941):
“A infância melancólica
ficou naqueles longos dias iguais,
a olhar o rio no quintal horas inteiras,
a ouvir o gemido dos bambus verde-negros
em luta sempre contra as ventanias!”
No mesmo poema, uma ponta de assombro, companheiro de letras, fonte de tanta boa literatura:“A menininha ríspidanunca disse a ninguém que tinha medo,porém Deus sabe como seu coração batia no escuro,Deus sabe como seu coração ficou para sempre diante da vida— batendo, batendo assombrado!”
Henriqueta crescia como a cidade, impulsionada pela inauguração, a 24 de abril de 1911, do Cassino do Lago Guanabara, com a presença do presidente da República, marechal Hermes da Fonseca, e do governador do Estado de Minas, Júlio Bueno Brandão. Obra imponente, idealizada por Américo Werneck, o primeiro prefeito, que pretendia tornar Lambari uma referencia turística no Brasil como Vichy, na França.
Pinho de Riga da Rússia, telhas da França, azulejos e sanitários de Portugal e Inglaterra, tijolos, cimento, pedras, pisos, janelas, portas e forros e outros ítens da Ásia – não houve economia para tornar a obra o grande cartão-postal da cidade, nove décadas depois de sua inauguração.
Curiosamente, consta que o cassino durou apenas na noite de estreia. Não voltou mais a funcionar, em razão das disputas políticas tão tradicionais nas pequenas cidades de Minas Gerais. O prédio hoje e tombado pelo patrimônio municipal e estadual, e sede de vários eventos culturais.
No momento em que sua Lambari se tornava conhecida em todo Brasil, Henriqueta Lisboa estudava. O Curso Primário foi feito no Grupo Escolar “ Dr. João Bráulio Júnior”, de Lambari, e o Curso de Magistério, muito comum na época, foi cumprido no Colégio Sion, de Campanha. O magistério, inclusive, foi decisivo em sua postura de fazer, também, literatura para crianças.
O contato com a literatura crescia, e se aprofundaria com os estudos no Rio de Janeiro, para onde a família se transferiu em 1926 – o seu pai tinha sido eleito deputado federal. O primeiro livro, de 1925, “Fogo Fátuo” , do ano anterior, já prenunciava a grande poeta, de tendências simbolistas até a década de 1940 – depois sentiu o inevitável impacto do modernismo (manteve farta correspondência com Mário de Andrade).
As lendas da infância, a inspiração nas ruas de Lambari e Campanha, o contato com as grandes cidades (Rio de Janeiro, Belo Horizonte) estarão nos poemas de seus vários livros, como em “Caboclo - d'água” (O Menino Poeta, 1943):
“Caboclo-d'água
vá-se embora
vá-se embora
caboclo-d'àgua
não me chame não!”
A reflexão sobre a condição feminina também está presente na obra de Henriqueta Lisboa, em verso e em prosa. Ela publicou vários ensaios, começando justamente com “Almas femininas da América do Sul”, artigos publicados na Revista Columbia, do Rio de Janeiro, entre 1928 e 1929.
Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, outra poeta mineira (São João del-Rei, c. 1758 — São Gonçalo do Sapucaí, 24 de maio de 1819), foi grande inspiração. Mulher de Alvarenga Peixoto, exilado para Angola pela participação na Inconfidência Mineira (segundo autores, com grande apoio da esposa) Barbara Heliodora teve uma vida angustiada. Seus escritos se perderam em sua maioria, restando fragmentos como “Conselhos a meus filhos” :
“Meninos, eu vou ditar
As regras do bem viver;
Não basta somente ler,
È preciso ponderar,
Que a lição não faz saber,
Quem faz sábios é o pensar”.
Heliodora morreu em São Gonçalo do Sapucaí (o “rio que grita”, em língua indígena), localizada não muito longe de Lambari, cuja filha Henriqueta Lisboa, reconhecida pela influência daquela mulher pioneira, lhe dedicou o poema “Drama de Bárbara Heliodora” (Madrinha Lua, 1952):
“Chora Bárbara Heliodora
Guilhermina da Silveira.
E em suas artérias corre
o sangue de Amador Bueno!
Chora, porém já sem lágrimas.
É de mármore seu rosto.
Seu busto cai sobre os joelhos:
flores que de trepadeiras
pendem murchas para o solo.

Talvez já nem saiba como
– para donaire da estirpe –
na ponta dos pés erguida
em hora periclitante
ousou admoestar o esposo:
"Antes a miséria, a fome,
a morte, do que a traição!"

Valem muralhas de pedra
para represa dos rios,
certas palavras eternas
que decidem do destino”.

A menina de Lambari, sempre tomada pelo assombro, publicou em 1977 “Celebração dos elementos água, ar, fogo, terra”, em Belo Horizonte. Clara demonstração da poesia telúrica, embebida na vida, de Henriqueta, professora de Literatura na Universidade Católica de Minas Gerais e na Escola de Biblioteconomia da UFMG. Foi a primeira mulher a chegar a Academia Mineira de Letras, em 1963 (bela homenagem, sem duvida, ao pioneirismo de Bárbara Heliodora...). Henriqueta Lisboa faleceu em BH, a 9 de outubro de 1985, reconhecida como um dos grandes nomes da literatura brasileira e portuguesa – embora sua obra ainda mereça ser mais conhecida. Alma sedenta de liberdade, uma obra de fortes raízes mineiras, como em “Romance do Aleijadinho” (Madrinha Lua, 1952)-
“Mãos compassivas depõem
no peito coberto de úlceras,
restos do sagrado livro.
- Sobre meu corpo, ó Senhor,
põe teus divinos pés.

O moribundo sem força
move os lábios num sussurro.
E da distância dos séculos
anjos e virgens o escutam”.

A poesia da filha de Lambari ecoa no coração de todos que também amam a vida, a arte e a liberdade.

José Pedro Martins, jornalista e escritor, autor de “Pó Ética da Paz”, 1993, Sun Edições (co-autoria, com Maria do Rosário Lino)



NASCER NO SUL DE MINAS É TER PEDRA E ÁGUA NA ALMA

Rio Grande e outros principais cursos d' água do Sul de Minas

(Mapa disponibilizado no Sistema Integrado de Informações Ambientais - Siam, vinculado à Secretaria Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD) de Minas Gerais)

José Pedro Martins

Tanto tempo longe, tantos quilômetros rodados e voados, tantas cidades como morada, mas a pergunta que sempre ecoa: o que é ser itamogiense e sul-mineiro? A equação é aparentemente simples, dessas que a gente aprende na escola e não esquece: Ita=pedra, Mogi = rio. Ita e Mogi, pedra e água, de Itamogi, mas também Itajubá, Itamonte, Itaú de Minas, Itutinga, Itanhandu, Itumirim, Itapeva, Cachoeira de Minas, Cambuquira (das “Águas Virtuosas”), Carmo da Cachoeira, Córrego do Bom Jesus, Cristais, Guapé, (o “tapete verde” das lagoas e rios...), Lambari (do peixe que povoa o Lago Guanabara...) e mais, muito mais...
Mas o que significa a mescla desses dois elementos, pedra e água, em um só coração? Ser brasileiro é, antes de tudo, ter alma de água. O Brasil tem água na alma. A formação do País e de seu povo se deu em função da água. Os povos indígenas encontrados pelos portugueses tinham cultura solidamente fundada no contato com a água. Os rios eram os seus meios de comunicação, eram as fontes primordiais de suas lendas, mitos e divindades, como Yara ou Moema, celebrizada em pinturas e textos que se tornaram clássicos.
Em sua obra-prima “Casa Grande & Senzala”, Gilberto Freyre destaca como o brasileiro deve aos povos indígenas, e sobretudo às mulheres índias, o gosto pelo banho, o prazer da água. Os portugueses, como outros europeus, assinalava Freyre, não gostavam de banho, e se espantavam com o hábito das canhas,as índias mergulhadas nos rios e lagos.
Mas não se pode esquecer que, para chegar à terra do pau-brasil, os portugueses tiveram de atravessar Mar Ignoto, aquele marzão desconhecido que eles domaram entre os séculos 15 e 16 e que os tornou por algum tempo senhores de grande parte do planeta. Sim, o mar tem importância enorme para o caráter dos portugueses e por tabela do nosso, os brasileiros.
O livro que imortalizou a epopéia dos portugueses pelos mares antes desconhecidos, “Os Lusíadas”, de Camões é a síntese dessa aventura, que impregnou o coração e a mente dos lusitanos com o cheiro, a magia e o perigo dos oceanos.
O mesmo pode ser dito em relação à cultura africana, que chegou ao Brasil na dolorosa trajetória dos navios negreiros pelo Oceano Atlântico. Antes de enfrentar os horrores das senzalas, os escravos lutavam contra os riscos inevitáveis de uma travessia oceânica como era feita na época, com o agravante das péssimas condições em que viajavam. Calcula-se que cerca de 40% de quem embarcava na África não chegava vivo às costas brasileiras. Os mortos eram, claro, atirados ao mar.
O mesmo mar para quem a cultura negra presta tema reverência até hoje, como pode ser visto nas belas festas para Yemanjá nos finais de ano. Festas que comovem e envolvem a todos, negros, brancos e mulatos, como uma das mais finas expressões do rico sincretismo religioso alicerçado em solo tupiniquim.
Os brasileiros estamos, portanto, localizados na confluência hídrica das culturas índia, branca e negra, banhados pela sabedoria, pela beleza, pela tristeza e pela esperança, que essa tríplice herança significa. E nem poderia ser diferente, em um país que tem 12,5% da água doce do planeta, um litoral de mais de sete mil quilômetros e a grande parte da maior reserva de água subterrânea do mundo, o Aqüífero Guarani.
Pois bem, se o brasileiro tem alma de água, e o sul-mineiro em geral? Além da água, esse símbolo perfeito de leveza, de transparência, de capacidade para se adaptar a várias situações, nós temos a enorme, ou melhor, a incomensurável sorte de termos, também, pedra na alma.
A pedra que simboliza a força em meio a qualquer adversidade. A pedra de quem defende a verdade porque eterna e libertadora. A pedra de quem se encanta com todos que ajudam a construir, tijolo por tijolo, um mundo novo, uma vida nova, uma cidade nova - a cidade onde se ama, se dialoga, se respeita e se completa no outro, a cidade que respeita os limites da natureza.
Tenho enorme, ou melhor, o incomensurável orgulho de ser itamogiense e sul-mineiro. De ter alma de pedra e de água. Todo sul-mineiro tem. Estão na região as fontes de água que abastecem áreas dos estados mais populosos e as maiores economias do país (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais). As águas daqui, da bacia do Rio Grande, geram 67% da energia elétrica produzida em Minas.
E as montanhas? Ah, as montanhas do Sul de Minas. A Mantiqueira e todas as outras. A Mantiqueira, “montanha que chora”, mãe de tantas fontes de águas. O seu contorno sinuoso, o seu friozinho, o seu céu aberto como portal nos conectando com o cosmo eterno, as estrelas que já morreram e continuando emitindo sua luz que faz estremecer o coração de quem ama a vida e vive para amar.
Temos pedra e água na alma, vibramos, no Sul de Minas, com a vida que lateja e exubera como cristais de água límpida.

José Pedro Martins é jornalista e escritor itamogiense e sul-mineiro, autor entre outros livros de “Terra Cantata - Uma história da sustentabilidade” e “A Década Desperdiçada – O Brasil, a Agenda 21 e a Rio+10”