
Foto José Pedro Mar-
tins: Assis, Itália, na luta pela paz mundial
Os gastos globais com o setor de produção e venda de armas, entre outras despesas militares, continuam superando, em muito, os orçamentos com a viabilização de acesso a água potável e saneamento básico adequado. Com isso, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, estabelecidos pela Cúpula do Milênio, em 2000, para o horizonte de 2015, terão maior dificuldade de êxito.
Em função da queda do Muro de Berlim, da crise no Leste Europeu e do conseqüente fim da Guerra Fria, os gastos mundiais com a indústria bélica, que chegaram a US$ 1,1 trilhão em 1988, caíram, de US$ 960 bilhões em 1992 para US$ 834 bilhões em 1998, nas estimativas do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI).
Contudo, a repercussão dos atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova York e Washington, e depois a Guerra no Iraque, entre outros fatores, foram combustível suficiente para realimentar a corrida armamentista. Os gastos militares planetários atingiram US$ 892 bilhões em 2001 e US$ 948 bilhões em 2002, para chegar a US$ 1,158 trilhão em 2006, segundo o SIPRI Yearbook 2007.
Um elemento que chama a atenção, que inquieta, que incomoda, no relatório da organização sueca é o aumento exponencial de gastos militares justamente nas áreas de maior carência de saneamento básico e/ou acesso a água doce no planeta.
Entre 1988 e 2006 os gastos no setor bélico aumentaram 81% na Ásia e Oceania, 80% no Oriente Médio e 28% na África (sendo 109% no Norte da África, onde estão alguns dos pontos de escassez crônica de água e saneamento). No continente americano, onde está o maior volume de água doce do planeta, os gastos com armas aumentaram 9% no período, mas chegando a 46% de incremento na América Central e a 22% na América do Sul. O único continente onde houve redução nas despesas militares foi a Europa, com queda de 40% no período – o continente europeu gastou US$ 310 bilhões em 2006 no setor militar (contra US$ 513 bi em 1988), também indicando aumento em relação aos US$ 275 bilhões de 1998.
As informações sobre gastos com armas no mundo se tornam especialmente cruéis quando comparadas com a necessidade de investimentos em acesso a água e saneamento básico, o que por sua vez repercutiria na melhoria geral das condições de saúde, educação e desenvolvimento econômico e social como um todo.
O Relatório de Desenvolvimento Humano 2006, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), lembra da ocorrência de 1,8 milhões de mortes de crianças por ano em função da falta de acesso a água potável e saneamento. São 150 mil mortes por mês, ou cinco mil por dia – para se ter uma idéia da dimensão desse genocídio silencioso, os cálculos são de que, desde a invasão por tropas norteamericanas, em março de 2003, até novembro de 2006, a Guerra do Iraque provocou entre 100 mil e 150 mil vítimas fatais entre a população civil.
De acordo com o mesmo Relatório, as mortes em 2004 por diarréia – doença típica da falta de saneamento e falta de água limpa – foram seis vezes mais numerosas que a média anual de mortes em conflitos armados em todo planeta na década de 1990.
Sem água e saneamento, observa o PNUD, 443 milhões de dias escolares por ano são perdidos em função de doenças de veiculação hídrica, impedindo que as crianças vão à escola, o que representa um déficit gigantesco nas metas para a melhoria da educação em escala global. Na mesma linha, milhões de dias escolares são perdidos porque as crianças de muitos países são obrigadas a buscar água para as famílias – tarefa que se torna uma sobrecarga a mais de trabalho para milhões de mulheres, que têm o seu desenvolvimento humano pessoal especialmente afetado.
Segundo o PNUD, as metas de água potável para a África subsaariana serão atingidas em 2040 e as metas de saneamento, em 2076, mantidas as tendências atuais – nessa região da África, segundo o SIPRI, as despesas militares aumentaram mais da metade entre 1997 e 2006, indo de US$ 5,8 bilhões para US$ 9 bilhões. Entre os países árabes, de acordo com o PNUD 2006, as metas de água estão atrasadas em 27 anos – no Oriente Médio, os gastos militares aumentaram 80% entre 1988 e 2006, chegando nesse ano a US$ 72,5 bilhões.
O PNUD estima em US$ 10 bilhões por ano os investimentos suplementares necessários para se atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio em 2015 em água e saneamento, valor que representa menos de uma semana de gastos militares globais. "É um pequeno preço a pagar por um investimento que pode poupar milhões de vidas jovens, libertar um potencial de educação desperdiçado, salvar as pessoas de doenças que as privam da sua saúde e gerar um retorno econômico que impulsionará a prosperidade", diz o Relatório de Desenvolvimento Humano 2006.
Investir em água, em saneamento, e não em armas. O mesmo relatório observa que, na Etiópia, o orçamento militar é 10 vezes superior ao da água e saneamento – no Paquistão, 47 vezes.
Entretanto, a questão de investir mais em saneamento não se limita a opções políticas nos países mais pobres. Os países considerados mais desenvolvidos, de acordo com o SIPRI, são aqueles que mais gastam em despesas militares. Estados Unidos (US$ 528 bilhões), Reino Unido (US$ 59 bi), França (US$ 53 bi), China (US$ 49 bi) e Japão (US$ 43 bilhões) são os países com maiores despesas militares em 2006, seguidos de Alemanha (US$ 37 bi), Rússia (US$ 34 bi), Itália (US$ 29 bi), Arábia Saudita (US$ 29 bi) e Índia (US$ 23 bilhões).
O Brasil aparece em 14o lugar no ranking de gastos militares no relatório do SIPRI, com despesas de US$ 13,4 bilhões. Como se sabe, segundo o GEO Brasil 2006, da Agência Nacional de Águas (ANA), o índice urbano de coleta de esgotos no Brasil é de 54%, chegando a 9% na Amazônia, onde está o maior volume de água doce no planeta.
Os desafios estão colocados. Mais vida, mais água, mais saneamento para todos. Menos mortes, menos desperdício.
José Pedro Martins é jornalista e escritor, autor, entre outros, de "Agenda 21 local uma ecocivilização – Na Era da Nanocultura e da Ecopolítica", Editora Komedi, 2005
Os gastos globais com o setor de produção e venda de armas, entre outras despesas militares, continuam superando, em muito, os orçamentos com a viabilização de acesso a água potável e saneamento básico adequado. Com isso, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, estabelecidos pela Cúpula do Milênio, em 2000, para o horizonte de 2015, terão maior dificuldade de êxito.
Em função da queda do Muro de Berlim, da crise no Leste Europeu e do conseqüente fim da Guerra Fria, os gastos mundiais com a indústria bélica, que chegaram a US$ 1,1 trilhão em 1988, caíram, de US$ 960 bilhões em 1992 para US$ 834 bilhões em 1998, nas estimativas do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI).
Contudo, a repercussão dos atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova York e Washington, e depois a Guerra no Iraque, entre outros fatores, foram combustível suficiente para realimentar a corrida armamentista. Os gastos militares planetários atingiram US$ 892 bilhões em 2001 e US$ 948 bilhões em 2002, para chegar a US$ 1,158 trilhão em 2006, segundo o SIPRI Yearbook 2007.
Um elemento que chama a atenção, que inquieta, que incomoda, no relatório da organização sueca é o aumento exponencial de gastos militares justamente nas áreas de maior carência de saneamento básico e/ou acesso a água doce no planeta.
Entre 1988 e 2006 os gastos no setor bélico aumentaram 81% na Ásia e Oceania, 80% no Oriente Médio e 28% na África (sendo 109% no Norte da África, onde estão alguns dos pontos de escassez crônica de água e saneamento). No continente americano, onde está o maior volume de água doce do planeta, os gastos com armas aumentaram 9% no período, mas chegando a 46% de incremento na América Central e a 22% na América do Sul. O único continente onde houve redução nas despesas militares foi a Europa, com queda de 40% no período – o continente europeu gastou US$ 310 bilhões em 2006 no setor militar (contra US$ 513 bi em 1988), também indicando aumento em relação aos US$ 275 bilhões de 1998.
As informações sobre gastos com armas no mundo se tornam especialmente cruéis quando comparadas com a necessidade de investimentos em acesso a água e saneamento básico, o que por sua vez repercutiria na melhoria geral das condições de saúde, educação e desenvolvimento econômico e social como um todo.
O Relatório de Desenvolvimento Humano 2006, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), lembra da ocorrência de 1,8 milhões de mortes de crianças por ano em função da falta de acesso a água potável e saneamento. São 150 mil mortes por mês, ou cinco mil por dia – para se ter uma idéia da dimensão desse genocídio silencioso, os cálculos são de que, desde a invasão por tropas norteamericanas, em março de 2003, até novembro de 2006, a Guerra do Iraque provocou entre 100 mil e 150 mil vítimas fatais entre a população civil.
De acordo com o mesmo Relatório, as mortes em 2004 por diarréia – doença típica da falta de saneamento e falta de água limpa – foram seis vezes mais numerosas que a média anual de mortes em conflitos armados em todo planeta na década de 1990.
Sem água e saneamento, observa o PNUD, 443 milhões de dias escolares por ano são perdidos em função de doenças de veiculação hídrica, impedindo que as crianças vão à escola, o que representa um déficit gigantesco nas metas para a melhoria da educação em escala global. Na mesma linha, milhões de dias escolares são perdidos porque as crianças de muitos países são obrigadas a buscar água para as famílias – tarefa que se torna uma sobrecarga a mais de trabalho para milhões de mulheres, que têm o seu desenvolvimento humano pessoal especialmente afetado.
Segundo o PNUD, as metas de água potável para a África subsaariana serão atingidas em 2040 e as metas de saneamento, em 2076, mantidas as tendências atuais – nessa região da África, segundo o SIPRI, as despesas militares aumentaram mais da metade entre 1997 e 2006, indo de US$ 5,8 bilhões para US$ 9 bilhões. Entre os países árabes, de acordo com o PNUD 2006, as metas de água estão atrasadas em 27 anos – no Oriente Médio, os gastos militares aumentaram 80% entre 1988 e 2006, chegando nesse ano a US$ 72,5 bilhões.
O PNUD estima em US$ 10 bilhões por ano os investimentos suplementares necessários para se atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio em 2015 em água e saneamento, valor que representa menos de uma semana de gastos militares globais. "É um pequeno preço a pagar por um investimento que pode poupar milhões de vidas jovens, libertar um potencial de educação desperdiçado, salvar as pessoas de doenças que as privam da sua saúde e gerar um retorno econômico que impulsionará a prosperidade", diz o Relatório de Desenvolvimento Humano 2006.
Investir em água, em saneamento, e não em armas. O mesmo relatório observa que, na Etiópia, o orçamento militar é 10 vezes superior ao da água e saneamento – no Paquistão, 47 vezes.
Entretanto, a questão de investir mais em saneamento não se limita a opções políticas nos países mais pobres. Os países considerados mais desenvolvidos, de acordo com o SIPRI, são aqueles que mais gastam em despesas militares. Estados Unidos (US$ 528 bilhões), Reino Unido (US$ 59 bi), França (US$ 53 bi), China (US$ 49 bi) e Japão (US$ 43 bilhões) são os países com maiores despesas militares em 2006, seguidos de Alemanha (US$ 37 bi), Rússia (US$ 34 bi), Itália (US$ 29 bi), Arábia Saudita (US$ 29 bi) e Índia (US$ 23 bilhões).
O Brasil aparece em 14o lugar no ranking de gastos militares no relatório do SIPRI, com despesas de US$ 13,4 bilhões. Como se sabe, segundo o GEO Brasil 2006, da Agência Nacional de Águas (ANA), o índice urbano de coleta de esgotos no Brasil é de 54%, chegando a 9% na Amazônia, onde está o maior volume de água doce no planeta.
Os desafios estão colocados. Mais vida, mais água, mais saneamento para todos. Menos mortes, menos desperdício.
José Pedro Martins é jornalista e escritor, autor, entre outros, de "Agenda 21 local uma ecocivilização – Na Era da Nanocultura e da Ecopolítica", Editora Komedi, 2005
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