
"Tiradentes esquartejado" , Pedro Américo de Figueiredo e Mello, 1893, Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora
Por José Pedro Martins
Um óleo sobre tela de grandes proporções, de 270 por 165 centímetros, causava incômodo, perturbação, aos visitantes da ala dedicada à arte do século 19 da Mostra Brasil 500 Anos, para muitos o maior evento cultural já realizado no País. A Mostra esteve vários meses no Pavilhão da Bienal no Ibirapuera, em São Paulo, no ano 2000.
A tela em questão, datada de 1893, é o retrato de uma Nação que em cinco séculos vem construindo sua identidade a partir da fragmentação e do dilaceramento. Esse era o motivo de tanta perplexidade com aquela pintura, que integra o acervo do Museu Mariano Procópio, de Juiz de Fora, um lugar em si, no Sul de Minas Gerais, cheio de significados.
O Museu Mariano Procópio foi originalmente uma “villa” construída pela família de Mariano Procópio, por ocasião da visita da família imperial a cidade, para inaugurar a Estrada União e Industria. O imperador viu o prédio pronto posteriormente, e na inauguração da Estrada ficou mesmo abrigado na residência de Procópio, que depois concluiu a construção, situada nas proximidades do encontro do ribeirão São Pedro com o rio Paraibuna.
Em 1915 o palacete, em estilo renascentista, se tornou o primeiro museu de Minas Gerais, com um acervo espetacular, de 45 mil obras. Entre elas, o quadro originalmente batizado de “Tiradentes Supliciado” e hoje conhecido como “Tiradentes Esquartejado” . Uma obra-prima, um retrato perfeito do esquartejamento da identidade brasileira. “Tiradentes Esquartejado”, de Pedro Américo de Figueiredo e Mello, é de fato um ícone perfeito do que tem sido a história brasileira. O seu poder simbólico é impressionante. A cabeça cortada do “Mártir da Independência” preside do alto a obra-prima, e a sua localização ao lado de um crucifixo é uma clara tentativa de associação com o calvário de Cristo, projetando uma imagem inevitável em um País construído sob a influencia da Igreja Católica. As vestes rotas, jogadas sobre o tronco igualmente amputado, completam a associação com a Via Crucis. O simbolismo do instigante quadro de Pedro Américo é ainda maior, se consideramos a disposição das três partes em que o corpo de Tiradentes foi dividido na tela. No conjunto, esses três blocos formam uma figura muito parecida com o mapa do Brasil como é conhecido hoje.
No alto, a cabeça cortada corresponde aproximadamente ao que seria no mapa do Brasil a região formada pelos estados de Roraima e Amapá. O tronco, coberto com os citados panos rasgados, tem um alinhamento horizontal muito semelhante ao traçado constituído pelo restante da Amazônia e o Nordeste no mapa brasileiro.
A perna esquerda, por sua vez, projetada no quadro no sentido vertical, perpendicular ao tronco, corresponde aproximadamente ao traçado das regiões Sudeste e Sul. O pintor talvez não tenha tido essa perspectiva, e muito menos a intenção, quando concebeu o quadro, mas essa é a impressão que se tem da visão de Pedro Américo a respeito da figura triste e dolorida daquele que se tornou um dos maiores mitos nacionais.
Esquartejamento, amputação. A identidade brasileira vem sendo moldada, em cinco séculos de confluência de civilizações, a partir de fragmentos, de pedaços estilhaçados. É muito significativo a esse respeito que alguns dos nomes que se destacaram em momentos de busca de uma identidade nacional, como o próprio Tiradentes, tenham terminado a vida esquartejados, pedaços embebidos em sangue espalhados por estradas e cidades.
A lembrança de Tiradentes em todo 21 de abril ocasiona, entre outras, esta reflexão: que país estamos construindo, a partir de um mosaico de influencias, de culturas diversas, de interesses contraditórios, de visões distintas sobre a nação? Nessa diversidade e’ que parece residir à vitalidade e a identidade do Brasil, e nela mora a esperança de um país melhor para todos. Mas que seja uma diversidade forjadora de uma identidade nacional, em um país sem desigualdades sociais – este é o nosso drama histórico.
Tiradentes foi um exemplo: se a Inconfidência Mineira não foi vitoriosa ao seu tempo, os seus frutos apareceram ao longo do tempo. E permanece o desejo de um país de fato independente, que ande com suas próprias pernas. Ele tem tudo para isso. O sonho do humilde alferes, que às vezes arrancava dentes para sobreviver, não morreu. Liberdade ainda que tardia.
A vida de Pedro Américo de Figueiredo e Mello, nascido na pequena Areia, na Paraíba, em 1843, não foi menos cheia de significados. Estudou na Europa e foi considerado o pintor da Corte, pela afinidade com D.Pedro II. O mais famoso quadro, “Independência ou Morte”, encomendado pelo governo paulista, consagrou a imagem que todo brasileiro faz do momento em que d.Pedro I pronunciou o famoso “ Grito do Ipiranga” .
Após a Proclamação da Republica, Pedro Américo foi eleito deputado pela Paraíba, mas preferiu continuar pintando, embora tenha apresentado projetos importantes, como de criação de museus e universidades. Para muitos estudiosos, “ Tiradentes esquartejado” reflete o momento pessoal do artista, que se encontrava doente. Faleceu em 1905 na querida Florença, Itália, onde viveu muitos anos. Seu retrato está na célebre sala de pintores famosos na Galeria degli Uffizzi. Após sua morte, seu corpo foi trasladado para o Brasil e repousa em um local na sua Areias. “ Tiradentes Esquartejado”, em Juiz de Fora, continua projetando luzes, e também enigmas, sobre um país que continua construindo sua identidade em meio à diversidade, à esperança e algumas dores.
José Pedro Martins e jornalista e escritor, Prêmio Ethos de Jornalismo 2003, pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social
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