terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

NASCER NO SUL DE MINAS É TER PEDRA E ÁGUA NA ALMA

Rio Grande e outros principais cursos d' água do Sul de Minas

(Mapa disponibilizado no Sistema Integrado de Informações Ambientais - Siam, vinculado à Secretaria Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD) de Minas Gerais)

José Pedro Martins

Tanto tempo longe, tantos quilômetros rodados e voados, tantas cidades como morada, mas a pergunta que sempre ecoa: o que é ser itamogiense e sul-mineiro? A equação é aparentemente simples, dessas que a gente aprende na escola e não esquece: Ita=pedra, Mogi = rio. Ita e Mogi, pedra e água, de Itamogi, mas também Itajubá, Itamonte, Itaú de Minas, Itutinga, Itanhandu, Itumirim, Itapeva, Cachoeira de Minas, Cambuquira (das “Águas Virtuosas”), Carmo da Cachoeira, Córrego do Bom Jesus, Cristais, Guapé, (o “tapete verde” das lagoas e rios...), Lambari (do peixe que povoa o Lago Guanabara...) e mais, muito mais...
Mas o que significa a mescla desses dois elementos, pedra e água, em um só coração? Ser brasileiro é, antes de tudo, ter alma de água. O Brasil tem água na alma. A formação do País e de seu povo se deu em função da água. Os povos indígenas encontrados pelos portugueses tinham cultura solidamente fundada no contato com a água. Os rios eram os seus meios de comunicação, eram as fontes primordiais de suas lendas, mitos e divindades, como Yara ou Moema, celebrizada em pinturas e textos que se tornaram clássicos.
Em sua obra-prima “Casa Grande & Senzala”, Gilberto Freyre destaca como o brasileiro deve aos povos indígenas, e sobretudo às mulheres índias, o gosto pelo banho, o prazer da água. Os portugueses, como outros europeus, assinalava Freyre, não gostavam de banho, e se espantavam com o hábito das canhas,as índias mergulhadas nos rios e lagos.
Mas não se pode esquecer que, para chegar à terra do pau-brasil, os portugueses tiveram de atravessar Mar Ignoto, aquele marzão desconhecido que eles domaram entre os séculos 15 e 16 e que os tornou por algum tempo senhores de grande parte do planeta. Sim, o mar tem importância enorme para o caráter dos portugueses e por tabela do nosso, os brasileiros.
O livro que imortalizou a epopéia dos portugueses pelos mares antes desconhecidos, “Os Lusíadas”, de Camões é a síntese dessa aventura, que impregnou o coração e a mente dos lusitanos com o cheiro, a magia e o perigo dos oceanos.
O mesmo pode ser dito em relação à cultura africana, que chegou ao Brasil na dolorosa trajetória dos navios negreiros pelo Oceano Atlântico. Antes de enfrentar os horrores das senzalas, os escravos lutavam contra os riscos inevitáveis de uma travessia oceânica como era feita na época, com o agravante das péssimas condições em que viajavam. Calcula-se que cerca de 40% de quem embarcava na África não chegava vivo às costas brasileiras. Os mortos eram, claro, atirados ao mar.
O mesmo mar para quem a cultura negra presta tema reverência até hoje, como pode ser visto nas belas festas para Yemanjá nos finais de ano. Festas que comovem e envolvem a todos, negros, brancos e mulatos, como uma das mais finas expressões do rico sincretismo religioso alicerçado em solo tupiniquim.
Os brasileiros estamos, portanto, localizados na confluência hídrica das culturas índia, branca e negra, banhados pela sabedoria, pela beleza, pela tristeza e pela esperança, que essa tríplice herança significa. E nem poderia ser diferente, em um país que tem 12,5% da água doce do planeta, um litoral de mais de sete mil quilômetros e a grande parte da maior reserva de água subterrânea do mundo, o Aqüífero Guarani.
Pois bem, se o brasileiro tem alma de água, e o sul-mineiro em geral? Além da água, esse símbolo perfeito de leveza, de transparência, de capacidade para se adaptar a várias situações, nós temos a enorme, ou melhor, a incomensurável sorte de termos, também, pedra na alma.
A pedra que simboliza a força em meio a qualquer adversidade. A pedra de quem defende a verdade porque eterna e libertadora. A pedra de quem se encanta com todos que ajudam a construir, tijolo por tijolo, um mundo novo, uma vida nova, uma cidade nova - a cidade onde se ama, se dialoga, se respeita e se completa no outro, a cidade que respeita os limites da natureza.
Tenho enorme, ou melhor, o incomensurável orgulho de ser itamogiense e sul-mineiro. De ter alma de pedra e de água. Todo sul-mineiro tem. Estão na região as fontes de água que abastecem áreas dos estados mais populosos e as maiores economias do país (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais). As águas daqui, da bacia do Rio Grande, geram 67% da energia elétrica produzida em Minas.
E as montanhas? Ah, as montanhas do Sul de Minas. A Mantiqueira e todas as outras. A Mantiqueira, “montanha que chora”, mãe de tantas fontes de águas. O seu contorno sinuoso, o seu friozinho, o seu céu aberto como portal nos conectando com o cosmo eterno, as estrelas que já morreram e continuando emitindo sua luz que faz estremecer o coração de quem ama a vida e vive para amar.
Temos pedra e água na alma, vibramos, no Sul de Minas, com a vida que lateja e exubera como cristais de água límpida.

José Pedro Martins é jornalista e escritor itamogiense e sul-mineiro, autor entre outros livros de “Terra Cantata - Uma história da sustentabilidade” e “A Década Desperdiçada – O Brasil, a Agenda 21 e a Rio+10”

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