“Henriqueta Lisboa é hoje um dos poetas mais puros do Brasil. A forma límpida, cristal sem jaça de sua poesia, a agudeza das imagens, a densidade das palavras, a segurança do ritmo, sua humildade, constituem sua força expressiva e comunicativa.” As palavras são de Sérgio Milliet, a respeito de Henriqueta Lisboa (1901-1985), a poeta nascida em Lambari, Sul de Minas Gerais.
Impossível não associar as palavras do grande Milliet à infância de Henriqueta em Lambari, ao contato direto e permanente com as águas famosas da cidade. A cidade das Águas Virtuosas, como foi inicialmente denominada, em função das águas minerais descobertas na década de 1780 na Fazenda Trás da Serra, de Antonio Araújo Dantas, morador em Campanha.
As águas, límpidas como a poesia de Henriqueta Lisboa, determinaram o futuro de Lambari, transformada em estação balnearia no século 19 e que recebeu a visita, entre outros, da Princesa Isabel e Conde D’ Eu em 1868.
Águas Virtuosas torna-se distrito de paz em 1891, e dez anos depois (a 16 de setembro de 1901) já acontece a criação do município de Águas Virtuosas, pela lei estadual nº 3119. A instalação do município ocorre a 2 de janeiro de 1902.
O município foi criado, portanto, no ano de nascimento, a 15 de julho, de Henriqueta Lisboa, filha do farmacêutico e depois deputado federal João de Almeida Lisboa e de Maria de Vilhena Lisboa. A morte da irmãzinha (a morte sempre estaria presente em sua obra), o espanto com o mundo, a descoberta da vida enigmática, marcas de uma infância resumida em “Infância” (Prisioneiro da Noite,1941):
“A infância melancólica
ficou naqueles longos dias iguais,
a olhar o rio no quintal horas inteiras,
a ouvir o gemido dos bambus verde-negros
em luta sempre contra as ventanias!”
No mesmo poema, uma ponta de assombro, companheiro de letras, fonte de tanta boa literatura:“A menininha ríspidanunca disse a ninguém que tinha medo,porém Deus sabe como seu coração batia no escuro,Deus sabe como seu coração ficou para sempre diante da vida— batendo, batendo assombrado!”
Henriqueta crescia como a cidade, impulsionada pela inauguração, a 24 de abril de 1911, do Cassino do Lago Guanabara, com a presença do presidente da República, marechal Hermes da Fonseca, e do governador do Estado de Minas, Júlio Bueno Brandão. Obra imponente, idealizada por Américo Werneck, o primeiro prefeito, que pretendia tornar Lambari uma referencia turística no Brasil como Vichy, na França.
Henriqueta crescia como a cidade, impulsionada pela inauguração, a 24 de abril de 1911, do Cassino do Lago Guanabara, com a presença do presidente da República, marechal Hermes da Fonseca, e do governador do Estado de Minas, Júlio Bueno Brandão. Obra imponente, idealizada por Américo Werneck, o primeiro prefeito, que pretendia tornar Lambari uma referencia turística no Brasil como Vichy, na França.
Pinho de Riga da Rússia, telhas da França, azulejos e sanitários de Portugal e Inglaterra, tijolos, cimento, pedras, pisos, janelas, portas e forros e outros ítens da Ásia – não houve economia para tornar a obra o grande cartão-postal da cidade, nove décadas depois de sua inauguração.
Curiosamente, consta que o cassino durou apenas na noite de estreia. Não voltou mais a funcionar, em razão das disputas políticas tão tradicionais nas pequenas cidades de Minas Gerais. O prédio hoje e tombado pelo patrimônio municipal e estadual, e sede de vários eventos culturais.
No momento em que sua Lambari se tornava conhecida em todo Brasil, Henriqueta Lisboa estudava. O Curso Primário foi feito no Grupo Escolar “ Dr. João Bráulio Júnior”, de Lambari, e o Curso de Magistério, muito comum na época, foi cumprido no Colégio Sion, de Campanha. O magistério, inclusive, foi decisivo em sua postura de fazer, também, literatura para crianças.
O contato com a literatura crescia, e se aprofundaria com os estudos no Rio de Janeiro, para onde a família se transferiu em 1926 – o seu pai tinha sido eleito deputado federal. O primeiro livro, de 1925, “Fogo Fátuo” , do ano anterior, já prenunciava a grande poeta, de tendências simbolistas até a década de 1940 – depois sentiu o inevitável impacto do modernismo (manteve farta correspondência com Mário de Andrade).
As lendas da infância, a inspiração nas ruas de Lambari e Campanha, o contato com as grandes cidades (Rio de Janeiro, Belo Horizonte) estarão nos poemas de seus vários livros, como em “Caboclo - d'água” (O Menino Poeta, 1943):
“Caboclo-d'água
vá-se embora
vá-se embora
caboclo-d'àgua
não me chame não!”
A reflexão sobre a condição feminina também está presente na obra de Henriqueta Lisboa, em verso e em prosa. Ela publicou vários ensaios, começando justamente com “Almas femininas da América do Sul”, artigos publicados na Revista Columbia, do Rio de Janeiro, entre 1928 e 1929.
Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, outra poeta mineira (São João del-Rei, c. 1758 — São Gonçalo do Sapucaí, 24 de maio de 1819), foi grande inspiração. Mulher de Alvarenga Peixoto, exilado para Angola pela participação na Inconfidência Mineira (segundo autores, com grande apoio da esposa) Barbara Heliodora teve uma vida angustiada. Seus escritos se perderam em sua maioria, restando fragmentos como “Conselhos a meus filhos” :
“Meninos, eu vou ditar
As regras do bem viver;
Não basta somente ler,
È preciso ponderar,
Que a lição não faz saber,
Quem faz sábios é o pensar”.
Heliodora morreu em São Gonçalo do Sapucaí (o “rio que grita”, em língua indígena), localizada não muito longe de Lambari, cuja filha Henriqueta Lisboa, reconhecida pela influência daquela mulher pioneira, lhe dedicou o poema “Drama de Bárbara Heliodora” (Madrinha Lua, 1952):
“Chora Bárbara Heliodora
Guilhermina da Silveira.
E em suas artérias corre
o sangue de Amador Bueno!
Chora, porém já sem lágrimas.
É de mármore seu rosto.
É de mármore seu rosto.
Seu busto cai sobre os joelhos:
flores que de trepadeiras
pendem murchas para o solo.
Talvez já nem saiba como
– para donaire da estirpe –
na ponta dos pés erguida
em hora periclitante
ousou admoestar o esposo:
"Antes a miséria, a fome,
a morte, do que a traição!"
Valem muralhas de pedra
para represa dos rios,
certas palavras eternas
que decidem do destino”.
A menina de Lambari, sempre tomada pelo assombro, publicou em 1977 “Celebração dos elementos água, ar, fogo, terra”, em Belo Horizonte. Clara demonstração da poesia telúrica, embebida na vida, de Henriqueta, professora de Literatura na Universidade Católica de Minas Gerais e na Escola de Biblioteconomia da UFMG. Foi a primeira mulher a chegar a Academia Mineira de Letras, em 1963 (bela homenagem, sem duvida, ao pioneirismo de Bárbara Heliodora...). Henriqueta Lisboa faleceu em BH, a 9 de outubro de 1985, reconhecida como um dos grandes nomes da literatura brasileira e portuguesa – embora sua obra ainda mereça ser mais conhecida. Alma sedenta de liberdade, uma obra de fortes raízes mineiras, como em “Romance do Aleijadinho” (Madrinha Lua, 1952)-
“Mãos compassivas depõem
no peito coberto de úlceras,
restos do sagrado livro.
- Sobre meu corpo, ó Senhor,
põe teus divinos pés.
O moribundo sem força
move os lábios num sussurro.
E da distância dos séculos
E da distância dos séculos
anjos e virgens o escutam”.
A poesia da filha de Lambari ecoa no coração de todos que também amam a vida, a arte e a liberdade.
José Pedro Martins, jornalista e escritor, autor de “Pó Ética da Paz”, 1993, Sun Edições (co-autoria, com Maria do Rosário Lino)
Nenhum comentário:
Postar um comentário