domingo, 10 de fevereiro de 2008

NO SUL DE MINAS, BATE O CORAÇÃO DO MELHOR FUTEBOL DO MUNDO

José Pedro Martins

Para jogar futebol como Pelé, só mesmo tendo três corações. Em 2008, o Brasil e o mundo lembram os 50 anos do aparecimento do tricordiano Edson Arantes do Nascimento como o maior jogador de todos os tempos. Foi na Copa de 1958, quando o menino magro, meio desajeitado, deu um chapéu espetacular no zagueiro e garantiu a magra vitória de 1 a 0 contra o País de Gales. Brasil campeão, o primeiro de cinco títulos mundiais, era o começo da trajetória impressionante do sul-mineiro genial.

Nascido a 23 de outubro de 1940, Pelé passou poucos anos na cidade natal, onde João Ramos do Nascimento, o querido pai Dondinho, jogou no Atlético. A família se transferiu para Lorena (SP) quando ele ainda tinha dois anos. Depois, por pouco tempo, a família morou em São Lourenço, onde João Ramos do Nascimento, o querido pai Dondinho, jogou no Vasco.

A estadia em São Lourenço foi curta, mas o suficiente para que o menino iniciasse ali o encanto pelo futebol, vendo as partidas do pai habilidoso. E também foi ali que nasceu o apelido. Edson ficava maravilhado com as defesas do goleiro do Vasco, Bilé, a quem chamava “Plé”. José Lino da Conceição Faustino, o Bilé, era de Dom Viçoso, a 20 quilômetros de de São Lourenço. A mutação para Pelé foi natural, coisa de língua enrolada de criança.

Foi assim, rápida, a passagem de Pelé pelas origens sul-mineiras. Mas as sementes tinham sido lançadas ali, irrigadas pelas águas sinuosas do rio Verde, em Três Corações, e pelas águas milagrosas das fontes de São Lourenço. Com um nome de batismo em homenagem ao inventor da lâmpada e do cinescópio, Thomas Edison, a arte brilhante de Pelé iluminaria para sempre o futebol brasileiro, consagrado como o melhor do mundo a partir do filho da doce Celeste.

Pois no Sul de Minas, berço do Atleta do Século, o coração do futebol brasileiro continua batendo, forte, na trajetória de vários clubes importantes na história do esporte que é paixão nacional. São muitos destaques, e o primeiro aqui no Planeta Sul de Minas Gerais é da Associação Atlética Caldense, um dos mais conhecidos e vitoriosos clubes da região, campeã mineiro de 2002 e campeã do Interior de Minas Gerais em 2004.

História quase centenária

A Caldense foi fundada a 16 de novembro de 1925, por amantes do futebol originários de clubes fundados anteriormente, como o Foot-Ball Club Caldense, criado em 1904, o que o tornaria, se ainda estivesse em atividade, um dos mais antigos do Brasil. Remanescentes de outro clube criado no começo do século, o Internacional Futebol Clube, igualmente contribuíram para a fundação da Associação Atlética Caldense, que teve como primeiros dirigentes João de Moura Gavião (presidente), professor Hugo Sarmento (vice-presidente), Romeu Chiacchio (primeiro secretário), Cherubim Borelli (segundo secretário) e Caetano Pereira (tesoureiro). A primeira diretoria foi eleita na sede provisória, a Photografia Selecta (de propriedade de João de Moura Gavião), na avenida Francisco Salles, bem pertinho do Hotel Lafayette, um dos endereços para a estadia na aristocrática Poços de Caldas, que já se firmava como uma das principais atrações turísticas do Brasil na época. A data considerada de fundação é 6 de novembro de 1872, quando o capitão José Bernardes Junqueira doou parte de suas terras para a estruturação do núcleo urbano em área já conhecida por suas fontes de águas sulfurosas.

No dia 3 de abril de 1926 ocorreu a fusão entre a Caldense e o Gambrinus F.C, sob a presidência de Bruno Fosco Pardini, hoteleiro e jornalista nascido na Itália, tendo sido editor, em 1916, de “A voz do trabalhador” (nas décadas de 1910 e 20 Poços de Caldas tinha forte movimento operário, de inspiração anarquista). Até o final da década de 1950 a Caldense teve várias sedes, entre elas o Palacete Cobra (antigo Cassino Gibimba, muito popular), na praça Pedro Sanches, e o nobre Politeama, na avenida Francisco Salles.

Entre as décadas de 1920 e 1940 Poços de Caldas viveu o auge do turismo, quando funcionavam os cassinos e o Palace Hotel, entre outros, eram locais de estadia de grandes nomes da política, da economia e da cultura do Brasil. Uma suite especial no Palace Hotel era reservada ao presidente Getúlio Vargas. Entre outros “monstros sagrados”, freqüentaram a cidade na época o jurista Rui Barbosa, o “Pai da Aviação” Santos Dumont, a estrela Carmen Miranda, os grandes nomes da música brasileira Orlando Silva, Dalva de Oliveira, Vicente Celestino, Carlos Galhardo e Silvio Caldas. A argentina Libertad Lamarque também esteve na cidade na época.

Enquanto a elite brasileira passeava pela cidade, a Caldense continuava a crescer e a apaixonar, pela atuação de craques como Odilon Domingues Júnior, o Zito, que jogou no time entre 1936 e 37, antes de se destacar por equipes como a Portuguesa de Desportos e Atlético Mineiro. Na década de 1940, passou pela Caldense o jogador Mauro Ramos, que se destacaria depois no São Paulo até se tornar campeão mundial pelo Brasil em 1958, apesar de ter ficado entre os reservas. Já no Santos, seria o capitão da equipe bi-campeã mundial, em 1962, no Chile.

O declínio do turismo em Poços de Caldas ocorreu a partir da proibição do jogo no Brasil, em 1946 (pelo Decreto-Lei 9.215, assinado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, segundo alguns por influência da mulher, Carmela Leite Dutra, a Dona Santinha, católica fervorosa), e da descoberta do antibiótico (pesquisas da penicilina em 1928 e 29 por Alexander Fleming, produção industrial desde 1940), a partir da qual diminuiu a busca das águas antes indicadas pelos médicos para vários tratamentos. De qualquer modo, prosseguiu o charme irresistível da cidade cercada de serras por todos os lados - Serra de São Domingos ao Norte, Serras do Gavião e do Caracol ao Sul, Serra do Selado e Serrote do Maranhão a Leste, e Serra de Poços de Caldas a Oeste.

Neste cenário deslumbrante o interesse pelo futebol se tornou cada vez maior, sobretudo após a espetacular conquista brasileira na Suécia, em 1958. Entre 1960 e 61 uma campanha legendária, quando a Caldense somou 57 partidas invictas, atraiu atenções nacionais para o clube. A euforia se concretizou no ano seguinte, quando, na presidência do Dr. Antonio Megale, foi oficializada a doação pelo benemérito Cristiano Osório de Oliveira Filho da área em que foram construídos o campo de futebol e outras instalações.

Uma das escalações mais famosas da Caldense é da década de 1970, quando o time contava com o genial meio-campista Ailton Lira (depois Santos e São Paulo, entre outros), Neto, (depois Santos), o zagueiro Buzuca e o goleiro Walter Tambaú (depois Palmeiras de São João da Boa Vista). Carlos Alberto Silva, que se tornaria o técnico do Guarani de Campinas, campeão brasileiro em 1978, se projetou exatamente com a Caldense no período.

Outro Walter, o Casagrande Júnior, jogou na Caldense no começo da década de 1980. Ele foi emprestado, para ganhar experiência, pelo Corinthians. Em março de 1981, em jogo memorável, Casagrande atuou pela Caldense na disputa com a seleção brasileira que se preparava para a Copa da Espanha, no ano seguinte. Jogou contra Socrates, que viria a ser seu grande companheiro de “Democracia Corinthiana”. Em 1979 foi inaugurado o Estádio Municipal “Ronaldo Junqueira”, onde a Caldense passou a mandar seus jogos. O antigo estádio foi desativado, e o espaço transformado em outras instalações desportivas.

Em 2002 a grande conquista da Caldense, com o título de campeã mineira. A final, no dia 5 de maio, foi disputada contra o Nacional de Uberaba, e Gustavinho e Carioca marcaram para a Caldense. Dois anos depois, campeã do Interior.

Grandes e significativas vitórias, no momento em que o poder público local, em conjunto com a sociedade, busca resgatar a força vibrante do turismo na “Cidade das Rosas”, como Poços de Caldas também é conhecida. Os vôos do periquito, símbolo da Caldense (saiba mais no site oficial: http://www.caldense.com.br/), espelham o vigor e a graça do futebol no Sul de Minas Gerais. O rebaixamento em 2007 com certeza será um rápido episódio.


José Pedro Martins é jornalista e escritor, autor, entre outros livros, de “O Tetra no País do Surreal” (co-autoria com Maria do Rosário Lino), de 1994.

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